O Princípio da Smurfette

Esse texto foi originalmente publicado no site gringo TV Tropes (aviso: pode te viciar). É o início de uma série de posts voltados para falar sobre tropos. Se você estiver com preguiça de ler, pode assistir esse vídeo da autora da série Tropes vs Women, com legendas em português:

“Você não é tão inteligente quanto Stewart. Mas você é a única garota da cidade”.
— Taylor, Planeta dos Macacos

“Eu sou a única garota”.
— Marzipan, Homestar Runner

Para qualquer série que não é voltada exclusivamente para mulheres, é alta a probabilidade de que somente uma personagem feminina estará no elenco regular.

O Princípio da Smurfette é a tendência de obras de ficção terem exatamente uma mulher dentre um conjunto de personagens masculinos, a despeito do fato de que cerca da metade da população é feminina. Exceto se um programa for propositalmente destinado a uma audiência feminina, os personagens principais tendem a ser desproporcionalmente masculinos.

Em várias séries, homens terão diversas personalidades diferentes, mas as mulheres sempre serão A Moça. Assim, pela Lei da Conservação do Detalhe, você só precisa de uma.

Em outros casos, as mulheres são versões feminilizadas de personagens masculinos existentes.

Este tropo tem diminuído ao longo do tempo, mas ainda hoje é frequentemente aplicado em animações bem ou mal direcionadas aos garotos ou uma audiência geral. Isso é particularmente grave quando o elenco regular está cheio de organismos sintéticos ou de outras espécies que têm uma voz ou são suficientemente humanoides; estes sempre serão mais masculinos que femininos, com qualquer exemplo feminino recebendo atenção especial, sugerindo que as mulheres são meramente um subtipo raro de homens.

Por que esse tropo ocorre? Muitas vezes, o problema reside com o material de origem – o trabalho é uma adaptação de algo escrito ou criado décadas antes do reconhecimento de igualdade para mulheres começar a ganhar impulso. Às vezes, porém, os escritores tentarão corrigir esse problema inserindo alguns personagens femininos ou, pelo menos, uma Garota de Ação Positiva.

Quando chega a hora pra fazer merchandising, exceto se o elenco for totalmente feminino, os fabricantes não criam tantos figures de membros femininos quanto masculinos da franquia, mesmo que a série seja Mercadoria Impulsionada (ou ao menos até meados da década de 90). Isto cria um círculo vicioso em que O Princípio da Smurfette é mantida pelos fabricantes de brinquedos e escritores da TV, cada um argumentando que o outro irá aplicá-la de qualquer maneira. Isso pode ser porque, estatisticamente, as empresas acreditam que action figures de personagens femininas não vendem tão bem quanto os masculinos, todas as evidências do contrário. Claro, a falta de action figures femininas para se basear nesses números pode levar a outro círculo vicioso.

Na animação clássica de comédia ou em shows, especialmente do tipo pastelão, as mulheres muitas vezes estão ausentes porque bater numa garota não é considerado engraçado (no caso de Lesões Engraçadas, não é sempre assim).

Este tropo também pode ser justificado por sua fidelidade infeliz em alguns contextos. É bastante realista para exércitos, forças policiais, grupos aventureiros e grupos similares por serem predominantemente masculinos, principalmente se definido em uma História Politicamente Incorreta.

Conforme é observado nos exemplos abaixo, este tropo é quase universal em todas as formas de mídia. A maioria dos escritores tentam equilibrar isso com a Discriminação Positiva, fazendo a garota mais inteligente e sensata que os outros, mas isso ainda não muda o simples fato de que há apenas uma dela. Geralmente, a única coisa feita é em transformá-la numa Mary Sue para todos detestarem.

Escritores que reconhecem o problema depois de uma ou duas temporadas podem expandir o elenco com Garotas de Ação Positivas. Isso geralmente é mais eficaz.

Curiosamente, isso pode se estender para Mooks e o Monstro da Semana com Monstro de Gênero Único para evitar as Consequências Lamentáveis de violência contra as mulheres.

O nome desse tropo foi inicialmente cunhado por um artigo do New York Times impresso em 7 de abril de 1991, chamado “O Princípio da Smurfette”. O artigo discutia a mensagem negativa que este tropo deu ao seu público jovem: que homens são indivíduos que têm aventuras, enquanto mulheres são um tipo de variação que existem apenas em relação aos homens.

ALGUNS EXEMPLOS
Em Dragon Quest VIII temos Jéssica, a única personagem feminina jogável em um grupo de 4. Ela pode ser a Squishy Wizard, mas ela tem alguns dos ataques com armas mais poderosos. Embora ela tem algumas mudanças interessantes nas roupas. É também a terceira personagem que você tem e a única que pode jogar as grandes “blaster spells”. Tem também a princesa Medea, mas…

Na série Ape Escape, Pink Monkey é uma integrante do “Freaky Monkey Five”.

Sonic the Hedgehog nunca foi um personagem de peso nos seus primeiros jogos, mas nenhuma personagem feminina foi vista até ter Amy Rose, que se parecia um pouco com um Sonic rosa em um vestido. Mais personagens foram introduzidos que o elenco ampliou, mas a maioria deles são masculinos.

Em Bully, cada panelinha social tem apenas um único membro feminino contra cerca de meia dúzia de membros masculinos.

Wolfenstein 3D tem uma única mulher em ambas as séries, que é um boss quase idêntico ao seu irmão e possui voz baixa.

As únicas mulheres do primeiro Half-Life são as assassinas de preto que nunca falam e só aparecem em duas áreas. Em Half-Life 2, entretanto, existe uma distribuição igualitária dos gêneros entre os civis aleatórios e membros da Resistência, bem como a inclusão de Alyx, que com os Episódios 1 e 2, foi elevada ao status de personagem principal ao lado de Gordon Freeman.

Outros exemplos em jogos e outras mídias podem ser vistos na página original.

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3 comentários sobre “O Princípio da Smurfette

  1. Eu vi o vídeo todo. E foi curioso, de repente me percebi diante de fatos que são apenas o princípio de tudo o que passa batido pelos jogadores de videogame e pelos homens em geral. Há mesmo muita a coisa a ser observada e criticada. Personagens femininas ausentes ou estereotipadas aparecendo em minoria em filmes, games, livros… Já é algo estranho, imagine então todos os outros fatos machistas que existem nesse mundo para serem questionados. O assunto é mesmo complexo, e intrigante.

    Bom trabalho, mestra.

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