Que comecem os jogos!

erik wolpawSÃO QUATRO HORAS DA MANHÃ e o alarme do relógio de Erik Wolpaw não toca. É porque ele não possui um alarme. Seu corpo sabe que é hora de se levantar na mesma hora todo dia, mas só depois de luxuosas oito horas de sono. As mesmas oito horas que ele tem todas as noites. Nesses dias ele está se aproximando da meia idade, mas mesmo quando estava na escola em Cleveland, Ohio – e quase reprovado –, nem as garotas, nem sua participação em um grupo maldoso de hackers conhecido por fraude de cartões de crédito poderia abalar sua inveterada rotina de sono. “Era ótimo ser badass até às 8 da noite”, ele admite agora. “Mas nada é tão empolgante quanto oito horas de sono”.

Na ponta dos pés, ao redor da casa na escuridão, Erik veste uma camisa, se despede da sua esposa Diana, checa se seu filho de onze anos, Jack, está dormindo profundamente e tira da calçada seu carro Ford Taurus.

É normal o começo do dia. Mas hoje à noite pode ser diferente. Hoje, 16 de fevereiro de 2011, pode ser a noite de Portal 2, o novo videogame que ele co-escreveu na Valve em Seattle, será terminado após mais de três anos árduos de desenvolvimento. A pergunta é, ele vai estar acordado quando isto acontecer?

gabe newell portal gunPASSE TEMPO SUFICIENTE na indústria de games e um padrão emerge que é tão controlado quanto o sono de Wolpaw. Companhias de jogos se solidificaram em um planejamento de lançar novas sequências com grande regularidade a cada 12 ou 24 meses. Mas a Valve, um estúdio independente com mais de 250 artistas de classe mundial em que a revista Forbes estima valer 4 bilhões de dólares, pensa diferente. Esta desenvolvedora extremamente criativa, melhor conhecida por suas lendárias séries de jogos de ação em primeira pessoa Half Life, passou os últimos 14 anos inspirando gamers e a indústria com corajosas novas ideias. Na Valve, o entusiasmo empregado – não uma planilha do Excel – é a única métrica usada para avaliar o próximo passo da companhia.

“Uma vez que você teve sucesso, sua reação instintiva é parar e continuar com o que está fazendo”, diz o fundador da Valve, Gabe Newell, enquanto passeia por um longo corredor do escritório em sua marca registrada de camisa polo Ralph Lauren pra fora das calças. “E então há outras pessoas que dizem ‘nós realmente não temos escolha aqui. Temos que inovar continuamente’”.

Portal, um projeto de faculdade que virou o vencedor do Game of the Year de 2007, fez exatamente isso com quebra-cabeças, jogabilidade inovadora e diálogo espirituoso. O jogo foi nomeado depois de sua arma: a Aperture Science Handheld Portal Device (ASHPD), uma arma que dispara dois ovais brilhantes em paredes, tetos e pisos. Os ovais marcam as aberturas para um portal invisível. Ande – ou caia – em um oval e você vem voando para fora do outro, o que se espera que você fique mais perto da solução, um elevador de saída.

Agora a Valve está apenas a alguns passos de terminar a sequência, Portal 2. Dezessete passos, para ser exato.

SÃO 11 HORAS DA MANHÃ NA SALA DE CONFERÊNCIA FISHBOWL. O produtor Kutta Srinivasan está diante de toda a equipe e escreve um simples fato no quadro branco: “Bugs: 17”. Todos estão cansados. Ainda assim, você não pode deixar de se maravilhar com o poder de fogo criativo ao redor da mesa. Estes artífices da Aperture Science, o laboratório fictício onde os jogos ocorrem, variam entre 20 a 40 anos. Suas experiências cobrem toda uma gama. Em um canto está o apresentador de bonecos que interpretou o personagem de Red Fraggle no show de televisão de 1980 Fraggle Rock. A alguns assentos de distância, um dos gênios visuais por trás da trilogia O Senhor dos Anéis, de Peter Jackson. Outro jovem que saiu da faculdade há apenas dois anos e ainda paga empréstimos estudantis.fishbowl confere valve

Na Valve, não importa quantos anos você tem ou de onde veio. Todo mundo está em condição de igualdade com zero de hierarquia e sem títulos. “A cultura criativa que Gabe criou aqui me lembra de como era estar num show com Jim”, explica a animadora Karen Prell, que tinha apenas 22 anos quando Jim – Jim Herson, aliás – a selecionou para ser a voz e a força animadora por trás do Red Fraggle.

Neste dia em especial, no entanto, essa cultura está desgastada. Newell sabe disso e não gosta nem um pouco.

Por um momento, ele se lembra dos trabalhos ruins que fizera quando criança. Os trabalhos que ele odiava, como aquele serviço sem sentido de entregador de água num ginásio alemão enquanto seu pai estava servindo na aeronáutica. Mesmo que sua equipe esteja estressada, Newell espera que não pensem da Valve o que ele lembra daquele ginásio.

Ainda assim, não tem sido fácil criar uma sequência interessante para um dos jogos mais amados dos últimos cinco anos. “Acho que outras pessoas tinham mais confiança na equipe do Portal do que eles mesmos desde o início”, supõe Gabe. “Eles subestimaram a quantidade de estresse, mas também subestimaram seu próprio talento”.

Portal 2 é um jogo inspirado numa caixa brilhante maravilhosamente ilustrada. Ele receberá elogios da crítica e alcançará um enorme sucesso comercial. Por trás do jogo está o conto das pessoas que o construíram, o que demorou para trazê-lo à vida e os sacrifícios que eles fizeram pelo caminho. Agora, pela primeira vez, a Valve revela o que realmente aconteceu a portas fechadas. Do antecessor cancelado que nunca foi discutido publicamente aos atrasos e lutas que seguem insistentemente todo esforço criativo, aqui está The Final Hours of Portal 2.

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