Bayonetta e o Olhar Masculino

Aê galera, trago pra vocês mais um texto traduzido, dessa vez de um blog simpático chamado Go Make Me a Sandwich, um dos poucos blogs feministas gringos que conheço e que falem sobre jogos. Infelizmente não tive oportunidade de jogar Bayonetta por não ter console, mas já li algumas coisas a respeito. Sugestões para correções da tradução são sempre bem-vindas, é claro.

Bayonetta é, de longe, a personagem que menos gosto em qualquer tipo de jogo como nunca. Eu a odeio mais do que Ivy, mais do que a princesa Peach, mais do que a Samus de Metroid: Other M juntas. Ela é uma das personagens mais sexualizadas e objetificadas descaradamente de todos os jogos. Então nunca deixo de me frustrar que ela consegue gerar um pouco de polêmica. Isso pode soar contra-intuitivo, mas controvérsias é algo que requer fervor em ambos os lados de uma questão, e eu realmente não vejo como alguém poderia defender Bayonetta como um modelo positivo. E no entanto, as pessoas o fazem. Então vou dar uma olhada nos dois lados dos argumentos, e em seguida, ponderar com o que eu sinto de alguma evidência convincente.

PRÓS
Essa é uma questão da qual sinto suficientemente forte sobre o quanto eu não confio em mim mesma em resumir com precisão os argumentos para Bayonetta como uma personagem positiva, então vou deixar algumas pessoas não falarem por mim por um momento. Primeiro, uma defesa de Bayonetta como fantasia masculina:

Ela é sexy, sexual, engraçada, terrivelmente forte, extremamente confiante, sempre calma, violentamente independente e muitas vezes uma (fria) protetora dos outros. Ela está no topo de todas as situações, chuta uma quantidade apocalíptica de bundas e, embora sexual, nunca usa (não tanto quanto eu possa ver) a sua sexualidade de forma instrumental. Em vez disso, ela depende de um poder pessoal que faria o próprio capeta se molhar.

As mulheres estão realmente ofendidas que o homem moderno fantasia sobre uma mulher assim? São essas características pobres para colocar num pedestal? Se pensarmos que Bayonetta é uma personagem incrível, estamos de alguma maneira ferindo a consciência coletiva do sexo feminino? (Tópico no fórum do Gamespot: Admitido, B é uma fantasia masculina… mas ela é ruim? As mulheres estão ofendidas?)

Além desse, um argumento que Bayonetta é uma figura de empoderamento para as mulheres:

Bayonetta assume o estereótipo de mulher sexy dos jogos, de objeto a sujeito, e é extremamente poderosa. A personagem-título usa o manto de sua sexualidade como fonte de energia. Entre Bayonetta e sua rival igualmente feroz, Jeane, é um mundo das mulheres – os garotos apenas jogam nele. As bruxas Umbra não estão para ser misturadas. Com este tema único, o jogo em si é uma representação artística do conceito de que a sexualidade feminina é o seu próprio tipo de arma. (Bayonetta: emponderamento ou exploração?)

Por último, vamos jogar uma dose de “pessoas que odeiam Bayonetta são apenas ‘acusadoras de serem putas’ (slut-shaming)” para boa avaliação:

Eu aprendi algo com isso. Se você é um Deus da guerra que quer foder duas concubinas ao mesmo tempo por red orbs, é adequado. Se você é um designer de jogos que quer incluir a função de sacudir os peitos das protagonistas femininas de apoio num jogo de ninjas (Ninja Gaiden Sigma 2), está ok. Se você é um caçador de demônios sem camisa fazendo um discurso retórico sobre sua mais nova arma penetrante, está tudo bem! Mas deus me perdoe se uma mulher num jogo é a heroína principal e mostra estar confortável com sua sexualidade!

Até esse ponto, pensei que estávamos fazendo um progresso. Eu acreditava que poderíamos aceitar o quanto as fantasias irreais foram agradáveis, não compará-los com a realidade e deixar as mulheres terem uma diversão excêntrica e adulta em jogos tanto quanto os homens. (Bayonetta em seu julgamento de bruxa (a propósito, não são feministas que a julgam) – Como algumas pessoas levam as coisas a sério [sic] e não percebem que estão sendo sexistas)

Geralmente, esses são os três pontos principais que defensores pró-Bayonetta gostam de usar quanto estão discutindo por ela como um personagem positivo no jogo. Não concordo com nenhum desses pontos, mas eu queria dar ao campo pró-Bayonetta uma chance se falar por si mesmo ao invés de tentar colocar palavras na sua boca.

CONTRASPrimeiramente, acho que é importante considerar o contexto em que Bayonetta foi criada. Ela não é uma pessoa real, e como tal, temos que considerar a origem, bem como a própria personagem para se considerar se ela é uma figura positiva. Bayonetta é a criação de Hideki Kamiya, designer de jogos japonês que tem sido bastante aberto sobre a descrição dela como sua mulher ideal. Além disso, em referência à Bayonetta, Kamiya disse algumas coisas muito sexistas:

Bem, se eu tivesse que escolher um [momento], diria que é a cena em que Joy aparece pela primeira vez no jogo, com Bayonetta e sua impostora ficando em pose de batalha. Essa foi a minha maneira de expressar a noção do feminino que, para uma mulher, todas as outras mulheres são inimigas. Mesmo as mulheres que passam por si irão verificar o que a outra está vestindo, e podem ser atraentes com um pouco de antagonismo. Mulheres são assustadoras. (fonte: Dev de Bayonetta: Para uma mulher, todas as outras mulheres são inimigas)

Ataques com cabelo é algo que só uma mulher pode fazer, é a beleza de uma mulher. É por isso que eu vim com a ideia do cabelo. (1up.com: Entrevista com o desenvolvedor de Bayonetta)

Sinto fortemente que as mulheres de fora devem se vestir como ela. Por exemplo, quando ela faz um ataque com o cabelo, você veria a pele. Quero que as mulheres se vistam numa forma como essa. (fonte: idem)

[Em referência à sequência de Devil May Cry que está sendo feita por outra pessoa], eu queria fazer a sequência. Costumava querer fazê-la, mas agora é assim, alguma garota de outro cara. Não é mais minha garota. E ela foi enganada, e jogou tudo por todas as partes, então eu não a quero mais. Só estou concentrado na minha garota atual. (fonte: idem)

Mas de qualquer maneira sobre como estamos criando os movimentos de Bayonetta e tudo mais, e esta é a parte mais divertida do jogo, pensando sobre tudo isso. Então você será capaz de ver o que todo mundo na equipe gosta numa garota do projeto finalizado. (fonte: idem)

[Sobre se a roupa dela é puramente cabelo], sim, completamente cabelo. Isso significa que ela está realmente nua, mas nua porque isso é só cabelo, isso não é roupa. Ela tem poderes mágicos fortes, ela está usando sua força, seu poder mágico para manter o cabelo em seu corpo, para torná-lo uma roupa. Então quando ela fica fraca ou algo assim, ela pode perder seu poder mágico, e se isso acontecer… você sabe o que isto significa. (fonte: idem)

Então. Bayonetta é uma personagem sexy que tecnicamente anda nua por aí criada por um cara muito machista e codificada por um estúdio de homens que estão gastando seu tempo pensando sobre os tipos de movimentos sensuais que eles querem ver Bayonetta fazer. Isso, pra mim, é o maior prego do caixão.

Se Bayonetta fosse uma pessoa real, então não faria sentido proclamar que sua sexualidade é uma escolha e que ela é uma figura da capacitação feminina. Mas ela não é uma mulher real. Tudo nela foi concebido para ser sexualmente atraente para um homem que em suas próprias palavras, pensa que todas as mulheres devem se esforçar para serem tão sexuais como Bayonetta. Estas não são as palavras de alguém que estava observando para criar uma personagem que iria transformar os estereótipos em sua cabeça, nem são as palavras de alguém que está verdadeiramente interessado na criar personagens femininas capacitadas. A única preocupação de Kamiya na criação de Bayonetta era em criar uma personagem de ação que foi sua mulher ideal e projetar nela o máximo de sex-appeal para o espectador masculino hétero.

Tudo isso volta para o olhar masculino (sério, visitem esse link caso você não esteja familiarizado com o conceito de olhar masculino). Ao olhar para personagens fictícias como Bayonetta, você não pode desconsiderar o criador. Não é suficiente dizer que ela abraça sua sexualidade, porque em nenhum momento ela já começa a fazer alguma escolha. Seus criadores que fizeram as escolhas por ela. Por isso eu concordo totalmente com Jonathan Holmes em sua avaliação de Bayonetta:

Ela é uma casca vazia de uma personagem; uma casca feita a partir de criadores com fantasias sexuais, estereótipos negativos e noções equivocadas do gênero feminino.

Quanto às pessoas que dizem que você está sendo sexista de alguma forma por odiar Bayonetta, o mesmo ponto se aplica. Bayonetta não é uma pessoa que opera, ela é uma criação ficcional desprovida de qualquer vontade ou livre escolha. Não é slut-shaming para condená-la como um estereótipo vazio cuja sexualidade nada mais é do que uma perpetuação de estereótipos prejudiciais que cercam a sexualidade feminina. É uma opinião sobre os designers e escritores que a criaram para ser o que ela é. Bayonetta não é para mulheres, pura e simplesmente. Ela foi concebida por homens para homens. Como tal, não sinto nenhuma necessidade de fingir que ela é um modelo positivo.

A PROVA CONVINCENTE
Às vezes, uma imagem vale mais do que mil palavras. Imagens em movimento podem valer mais do que isso. Então eu o levei sobre mim mesma para editar alguns clips juntos que ilustram Bayonetta sexual em sua maioria e uni-los com uma música apropriada (embora eu percebo que minha escolha em músicas vai me namorar, infelizmente). Portanto, proponho o seguinte como um argumento de porque Bayonetta caracteriza o olhar masculino:

Bem, acredito que dava pra ter trabalhado melhor nos argumentos de ser contra o modelo de Bayonetta, por isso quem quiser complementar alguma informação, fique à vontade. Além disso, nesse meio tempo em que estava traduzindo o texto, cheguei a ver algumas reclamações sobre a autora (em forma de texto em blogs alheios e comentários), mas não tenho opinião formada ainda.

UPDATE: Soube agora de um vídeo um pouco antigo do FeministFrequency.com também fazendo uma crítica não só sobre o jogo, como também da publicidade usada na época do lançamento. Detalhe que esses dados sobre assédio que as japonesas sofrem no metrô também é citado no mangá Futari Ecchi.

Bônus:um texto completamente surreal em que Kamiya afirma ter ficado OFENDIDO quando viu ilustrações de cunho erótico de Bayonetta feita por fãs. Leia e tente não rir.

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3 comentários sobre “Bayonetta e o Olhar Masculino

  1. Moça, seu blog é um achado! Parabéns pelo trabalho que tem feito aqui, me animou para escrever sobre meus joguinhos também.

    Bem, o post é de 2012 e joguei esse recentemente. O que tenho a falar…

    Não há o que discutir, isso os próprios homens que gostam do jogo assumem: Bayonetta é uma personagem criada para o público masculino. Eu não consigo não gostar do jogo, amo de verdade, mas não é por isso vou fechar os olhos. Não me incomodo por ela ser sensual, inclusive gosto bastante da personagem, mas a apelação realmente é demais. Chegam a ser ridículos os closes ginecológicos em todos os movimentos e cenas de Bayonetta. Apesar de tudo, o jogo a mostra como uma mulher forte que não se deixa subjugar por ninguém, mas admito que isso se torna pequeno perto de toda obra sexualizada que é o jogo.

    Discordo de alguns dos pontos da autora para desmerecer a personagem, como a parte em que fala sobre a briga com mulheres. A própria relação dela com uma de suas inimigas se revela como algo importante depois, e Bayonetta tenta se mostrar superior a todos, não apenas às mulheres. No geral, os argumentos dela, apesar de mal-trabalhados, são verdadeiros, mas há muito a ser falado. Bayonetta é sexualizada, mas há sim coisas boas no modelo dela.

    Agora sim farei um texto abordando essa questão, desculpe esse comentário gigantesco. Só finalizo dizendo que Bayonetta não foi criada para mim, mas isso não me impede de gostar dela.

    • Ah, esse texto é mó fundo do baú mesmo xD a tradução provavelmente precisaria de revisão também, mas fico feliz em saber que cê curtiu o blog! e nem esquenta com comentário gigantesco – o mais importante é o conteúdo, né? é bem raro o pessoal se animar em se manifestar por aqui, ainda mais depois que parei de atualizar o blog (sdds). então fica à vonts 🙂

    • Bem Jéssica. Essa questão de sexualização é difícil. Muita coisa deve ser melhorada. O Kratos “pegador de mulher” também não agradou todo mundo. Mas é importante a gente lembrar que nem todo homem virtual aparece sexy e seminu e nem toda mulher também. Ellie, a nova Lara Croft, Aloy de Horizon Zero Dawn, são exemplos de mulheres empoderadas sem conotação sexual nem nada. Essas 03 mulheres são feitas para agradar gregos e troianos certo? Creio que você concorda. Se nós falarmos que a indústria não deve mais fazer mulheres sexualizadas, teremos que concordar que ela deverá parar de fazer homens, seminus, sem camisa, pegadores de mulher, etc. Há homens sexualizados também (em menor quantidade mais há) é importante nós cobrarmos da indústria de games que ela faça personagens para todos: personagens que agradarão mais a homens, uns que agradarão mais a mulheres, outros que agradarão a quase todos e por aí vai. O que muita mulher quer é que a indústria nunca mais faça mulheres sexualizadas aí é egoísmo. Pois há homens sexualizados como o Gladiolus do Final Fantasy XV. Lutar pelo certo é top e o certo é o bem estar de todos e não o egoísmo. Muitas mulheres gostaram do “rapaz” aí de cima e muitos homens gostaram da Bayonetta. Vamos pedir com calma e sabedoria que todos sejam agradados.

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