Os jogos “Salve a Princesa!”

Aquela mesma, que é raptada zilhões de vezes, é completamente passiva, não precisa de personalidade e, de quebra, dá mais algumas horas de diversão pro jogador. Bem, a ideia é essa.

UPDATE: Você pode ver inúmeros exemplos do modelo da “donzela em perigo” neste tumblr!

Esses dias estava pensando em quantos jogos, antigos e recentes, seguem o clichezão de um protagonista masculino que deve superar inúmeros inimigos e obstáculos para salvar sua amada como objetivo primário. Listei a seguir os jogos que lembrei que se encaixam nisso:

Donkey KongUm classicão dos arcades, em que o grandão captura a princesa Pauline e quando Mario ainda não era “Mario” propriamente dito. Por outro lado, na continuação no jogo, Donkey Kong Junior, você é o filho do Donkey Kong que, ao invés da princesa, você deve salvar o pai enjaulado.

The Legend of KageUm dos jogos que eu gostava muito quando criança. Kirihime é raptada no começo do jogo por ninjas e Kage a salva TRÊS vezes durante o jogo. Ela é raptada quatro vezes, mas é liberada na última assim que o chefão morre. Como diz no final do jogo, “todos os males desaparecem e a paz permeia em todo lugar”.

Super Mario BrosDefinitivamente a origem do que poderíamos chamar de “Síndrome da Princesa Peach”, afinal ser a referência máxima da submissão feminina nos jogos não é pra qualquer um. Ela só não continuou eternamente como um capacho graças aos spinoffs da série, como Mario Kart, Mario Tennis, Super Smash Bros entre outros.

Double DragonOutro jogo que conheci quando mais nova, dessa vez o herói vai resgatar sua namorada, sequestrada por uma gangue.

Prince of PersiaNo primeiro jogo da série e lembrado por ser bem difícil, o vilão da história, Jaffar, toma o poder enquanto Sultão está numa guerra. Mas existe um impedimento para conseguir o trono: a filha do Sultão. Dessa forma, ele a tranca numa torre e a ameaça dizendo que, se ela não aceitasse casar com ele, seria morta. O protagonista, sem uma identidade específica, tem até uma hora para salvar a princesa. Ela não tenta fugir nem nada, apenas espera o seu querido amado.

Super Meat BoyOutra namorada pra ser salva, no caso uma garota feita de band-aid que foi raptada por um feto. Considerando que as mêcanicas do jogo foram praticamente copiadas do modelo de jogos antigos (ainda que o fator dificuldade seja por limitações tecnológicas da época), é provável que a escolha do “plot” seja pelo mesmo motivo.

Shadow of The ColossusAqui a história é um pouco diferente: O protagonista Wander recebe como objetivo matar 16 criaturas, os Colossus, para poder ressuscitar uma garota chamada Mono, que aparentemente morreu devido a um sacrifício. Vale mencionar também o seu antecessor, Ico, que também tem um garoto que tenta proteger a filha de uma rainha perversa, Yorda, igualmente num estado de fragilidade.

The Legend of ZeldaApesar dos primeiros jogos serem praticamente iguais ao Mario nesse aspecto, a série consegue ser um caso à parte a partir do momento em que Zelda realmente começa a se tornar uma personagem importante para a história em si, possivelmente a partir de Ocarina of Time (não joguei o suficiente para afirmar isso com certeza).

LimboSem possuir uma história muito clara e passível de várias interpretações, o jogo se encaixa nessa categoria porque encontrar a irmã do protagonista também é o seu objetivo e recompensa ao terminar o jogo – além dela não influenciar em nada de maneira clara durante o processo.

Se você conhece mais jogos seguindo esse mesmo padrão, avise para serem incluídos na lista.

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15 comentários sobre “Os jogos “Salve a Princesa!”

  1. Hahaha, você não deve saber da pior: em Double Dragon os dois irmãos arrebentavam a cidade inteira apenas pra salvar a namorada de um deles, Marion, que no final do jogo ainda ficava com um dos irmãos, independente de ele ser o namorado original dela ou não. Desinibida como ela era, o abraço final no trouxa vencedor ainda fazia mostrar a calcinha da moçoila.

    Em The Legend of Zelda: Ocarina of Time, a princesa Zelda se transforma em Sheik, uma espécie de alter ego onde ela se passa por homem e ajuda link em determinados momentos do jogo.

    Agora, na minha opinião, não vejo maiores problemas em a “salvação da princesinha indefesa raptada” ser a meta final dos games do Mario e em Zelda. Há uma idéia romântica aí, a de que o herói precisa salvar a donzela em perigo, idealizada pelo criador dos games (no caso, Shigeru Miyamoto). Pode parecer apenas uma dependência/submissão estúpida do sexo feminino ao masculino, mas ao meu ver isso não é intencional, e nem deve ser considerado como um símbolo real do machismo nos videogames.

      • Vale citar também que você raramente vê jogos em que é o contrário: a mulher é o protagonista que vai salvar o homem indefeso. Socialmente isso não existe como “natureza” da mulher de ser a ativa e protetora, e consequentemente seria muito mais fácil um jogo com esse propósito causar estranheza do que um jogo nos moldes estereotipados de princesinhas inúteis.

        • Bom, me lembro que em Hydrophobia há uma parte onde a personagem principal, Kate, tem que ajudar um policial/guarda que está preso numa sala em chamas. Mas é verdade o que você falou, é raro uma protagonista ter que salvar um “príncipe” (pra ser franco, eu jamais soube algo parecido em um game).

          Mas não menospreze as princesinhas, elas dão graça aos jogos (haha, só provocando). <: B

    • Dafuq O_o

      Eu já sabia do Sheik, mas isso é só numa parte do jogo.

      É, e é justamente em romantizar essa submissão pra vangloriar o herói e dar gás para sua aventura (senão pra que enfrentar um monte de bichos e puzzles? pela aventura? ah vá). Além disso, poucas pessoas que fazem um jogo vão ter alguma consciência de que aquilo é preconceituoso em maior ou menor grau, e faz parte SIM do machismo nos jogos, da mesma forma que você vê nos filmes da Disney, por exemplo.

      • Mas se for ver, hoje em dia isso de salvar donzelas já não é tão frequente como era em outras épocas, ainda mais nos jogos direcionados a um público mais maduro. Em Crysis, por exemplo, os objetivos às vezes se resumia em procurar por soldados companheiros desaparecidos. Se bem que em outros momentos era preciso salvar a vida de uma arqueóloga/cientista das mãos dos aliens e de outros inimigos.

        Filmes da Disney? Contos de fada são machistas? Pra mim são é o contrário.

  2. Caindo de para-quedas na discussão aqui…

    Discutir relação de gênero em contos de fada é a mesma coisa que querer que a sua vó aceite homossexualismo numa boa (e eu acho que a minha aceitaria, haha). É retirar totalmente o objeto do contexto, desconsiderar as origens e os diálogos daquilo na época de produção/reprodução.

    E mesmo os filmes da Disney (que eu, feminista, consigo assistir, refletir a respeito e ainda me divertir) estão se atualizando nesse sentido ultimamente, com heroínas que salvam seu parceiro (como Encantada). Nos jogos, o movimento contrário talvez não esteja assim tão óbvio, mas sim, tem heroínas que salvam o mundo (como Dragon Age, que você escolhe não só o sexo como a sexualidade do seu personagem, salva o mundo e ainda chuta bundas de um monte de gente) e as coisas não são mais tão definidas.

    Mas bem, são meus dois centavos. 😉

    • Eu acho perfeitamente válido discutir contos de fada sob esse parâmetro pelo simples fato de que eles ainda são disseminados em larga escala desde a infantilização das histórias, sem qualquer reflexão de que aquilo nada mais é do que uma cultura ultrapassada e que não deveria ser colocada “em prática” (no caso, alimentar o estereótipo de princesas que só existem como objeto romântico para o herói). Se esse tipo de material fosse visto da mesma forma que animações, filmes e quadrinhos racistas – justificando sua época, mas sendo questionado como atualmente preconceituoso -, não veria essa reprodução de conteúdo tão “severamente”.

      Opa, que coincidência 8DDDD bem-vinda ao clube!

      E sim, eu reconheço esse avanço que a Disney/Pixar estão fazendo recentemente na mudança de alguns valores (como Diana e Merida). Quando me referi ao caso nos comentários, dei uma generalizada, considerando que a maioria dos filmes, mesmo os relativamente recentes, ainda são assim. E no caso desses filmes com estereótipos, de novo, não vejo problema algum em vê-los contanto que com senso crítico (nunca odiei tanto uma princesa como Cinderela quando vi o filme de novo).

      Quanto aos jogos, é o que eu estou dando mais atenção pra me aprofundar melhor nessas representações e separar as mulheres “criadas para satisfazer os fetiches do público masculino branco heterossexual” das mulheres “criadas para se parecem como mulheres reais em diversos aspectos”. Dragon Age ainda não joguei e gostaria de jogar quando tiver uma placa de vídeo melhor, mas até onde eu sei sobre o jogo, ele é bem interessante tanto quanto Mass Effect no que diz respeito à representação positiva feminina.

      Desculpe a bíblia xDDD

      • Em tempo: sim, é válido discutir contos de fada nessa ótica, me expressei mal ali em cima. Se a gente não reflete sobre o que se fez no passado, a gente não anda pra lugar nenhum. Branca de Neve foi, inclusive, meu objeto de pesquisa no mestrado. 🙂 Nunca amei e odiei tanto uma personagem ao mesmo tempo!

        E justamente por ser interessada no assunto, acho complicado deslocarmos um objeto do contexto de produção dele. Sim, eles têm uma visão extremamente preconceituosa em relação a mulher, e bebem de raízes primordiais nas narrativas, provavelmente bem anteriores à Idade Média (e começaram a ser registrados já bem depois disso, devemos lembrar). Reproduzir esses conceitos é algo, no mínimo, “antiquado” nos dias de hoje, pra não dizer desrespeitoso. Mas o fato é que habitam nosso imaginário, inconsciente coletivo, ou seja lá como se chama isso.

        Nos games é assim também, gostemos ou não (e muito já se mudou nesse sentido, honestamente). É válido, muito, refletir a respeito, criticar e pensar, notar como as personagens femininas são construídas bem como seu propósito no contexto do roteiro. Mas também não se pode ignorar necessidades de mídia, público alvo, etc. Tipo, uns meses atrás, vi um jogo para kinect que consistia em manter relações sexuais com personagens femininas, um game japonês. Eu reclamei disso pra tanta gente que tava começando a ficar chato, haha! Mas fiquei indignada, me revoltei, e ainda penso que só gente doente joga isso. ;P

        No fim, noto que nós pensamos de maneira semelhante nesse assunto. O que é bom. 🙂

        Sobre a fórmula de salvar a princesa, só penso que seria muito legal um game que subvertesse esse clichê/tropo. O herói saísse de casa pra salvar a mocinha e, no final, acabasse sendo salvo por ela, ou no caminho descobrisse que, na verdade, ela fugiu com o amante porque os pais não a deixariam se casar, ou qualquer coisa desse tipo. ;D

        Ps: Jogue Dragon Age. SÉRIO. XD

        • UAHAUAHAAUAH entendo! Tem algo ae pra eu ler sobre sua pesquisa de mestrado? Da Branca eu si eu nunca fiz questão de me aprofundar muito, no máximo gosto do filme como um marco de primeiro longa metragem animado (baseando me no que vi nos extras do DVD).

          Sobre ter mudado muito nesse sentido eu não sei se concordo muito. Se por um lado temos algumas representações positivas, ainda está numa fase bastante embrionária, de certa forma. Até porque contexto é algo que muitas vezes é totalmente dispensável, vide as armaduras femininas praticamente inúteis e quase sempre numa quantidade risível perto das armaduras masculinas (Tera, oi). Não é questão de roteiro, mas da prioridade para determinados público-alvo e reproduções constantes um tanto descerebradas.

          Bem, eu acho que sim XDDD foi bom discutir com você, aliás.

          Sua ideia é interessante. Tipo uma paródia desse clichê de um jeito que servisse como um meio de reflexão ou sei lá xDDD

          UM DIA eu jogarei DA, juro! Quando eu consegui uma placa de vídeo high profile ou quase =P

          PS: Já assistiu The Legend of Korra?

  3. No caso da série Super Mario, tem o jogo de DS Super Princess Peach, onde os raptados são Mario, Luigi e Toad, e dessa vez cabe à Peach salvar os marmanjos. Tenho ele mas ainda não joguei, deve ser o velho esquema Mario, mas é bom ver a Peach como a heroína pra variar um pouco. 😉

    • Bem eu achei super legal a iniciativa da Nintendo de colocar a Peach no papel de heroína, mas o que me incomodou nesse jogo é que ao invés de ela usa as emoções dela para atacar os inimigos. Quando ela fica triste chora (um ataque de água), quando tem raiva fica com uma aura de fogo, quando fica feliz flutua, etc. O que já é um certo estereótipo (ah, mulheres, tão emotivas, e muito delicadas para lutar). Não que eu esteja desmerecendo o jogo, e até porque é difícil mudar bruscamente certas coisas, e gostei da iniciativa da Nintendo, mas acho que seria interessante laçarem um Super Princess Peach 2 em que ela usa alguma outra forma de se defender do que a tpm.

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