Comentando: Fatale

fatale salome

Às vezes, quando me deparo com algum jogo baseado ou que faz referência a certos conteúdos externos, acabo me interessando em me aprofundar no assunto. No caso de Fatale, foi lendo Salomé, de Oscar Wilde, a obra homenageada pela Tale of Tales.

Wilde foi um importante escritor para a literatura inglesa do século 19, conhecido por sua vida turbulenta, por chocar a sociedade vitoriana e ser um dândi – além, é claro, da sua obra decadentista. Salomé, em particular, é uma tragédia em um ato, baseado numa passagem do Novo Testamento, sobre a morte do João Batista. Fazendo um resumo meio grosseiro, a princesa Salomé fica a par de um profeta preso numa cisterna do palácio, Iokanaan. Ela, por sua vez, exige vê-lo aos guardas, que acabam cedendo após muito relutarem, temendo a reação do tetrarca. Salomé rapidamente desenvolve uma obsessão lasciva pelo profeta, mesmo depois de ouvir dele uma série de impropérios indiretos sobre si e sobre sua mãe, Herodias.

Herodes, o tetrarca, com olhos sedentos sobre Salomé o tempo todo, pede à enteada que dance para ele. Salomé recusa várias vezes até ele jurar que dará “até metade do meu reino” se aceitar seu desejo, proposta que ela aceita, para o desgosto da mãe. No final, a princesa exige a cabeça de Iokanaan. Desesperado, Herodes suplica pra que mude de ideia, mas Salomé é absoluta no que deseja e juramento é juramento. Quando recebe a cabeça numa bandeja de prata, beija-o nos lábios. “Não há nada no mundo mais rubro que tua boca”, parafraseando-a.

Voltando para Fatale, você encarna Iokanaan enquanto está preso na cisterna e vê o movimento de Salomé dançando através de uma grade, gradualmente jogando sete véus ao chão. Nesse meio tempo, tudo o que você poderá fazer é ler vários dizeres do profeta à princesa, quando esta torna-se obsessiva pelo seu corpo, abominando-a. O executor logo te matará. A partir daí, seu espírito sobrevoa o palco e único cenário do jogo, e não mais do que três personagens completamente parados. Estariam congelados no tempo? Difícil concluir alguma coisa.

Paredes de texto, literalmente.

Paredes de texto, literalmente.

Aí vem o motivo maior pra eu não recomendar esse jogo nem um pouco: você fica cerca de uma hora fazendo a mesma.fucking.coisa: Apagar velas espalhadas pelo cenário. Possivelmente umas vinte. Tive que pausar numa hora e fazer outra coisa, pois é impressionante de como tal tarefa torna-se tão repetitiva e entediante, com variação zero na mecânica. A sua interação com o mundo se resume a isso, que só termina quando você “preenche” uma moldura ornamentada, revelando vários caracteres ainda indecifráveis pra mim.

A única coisa que posso afirmar com razoável certeza é que uma das inspirações para os ornamentos foi a pintura "The Apparition" de Gustave Moreau. E que são bonitos.

A única coisa que posso afirmar com razoável certeza é que uma das inspirações para os ornamentos foi a pintura “The Apparition” de Gustave Moreau. E que são bonitos.

Agora, uma coisa me intrigou foi o anacronismo proposital na forma de objetos. Vemos Salomé com um iPod na cintura (!), uma caixa de fósforo com seu nome, mais um número de telefone; uma guitarra ao lado de um amplificador e assim por diante. O que quer dizer, vai da sua imaginação. Mas é uma das poucas coisas interessantes de Fatale: fora a arte e a ambientação como um todo, somado à trilha sonora da dança dos sete véus, todo o resto é fraco.

Se, após terminar o jogo, você fechá-lo e abri-lo de novo, verá Salomé dançando, mas na visão do tetrarca. Até a atuação cênica da personagem é pouco inspirada, e as frases proferidas pela princesa aleatoriamente durante o processo de apagar as velas, acréscimo de um patch mais recente, sequer deixou a narrativa mais envolvente. Pra quem nunca leu a peça de Wilde provavelmente pouco aproveitará, pois é tudo muito jogado ao léu. E, no meu caso, que li…. Acho que há formas melhores de apreciar Salomé. E “notgames” menos cansativos.


A propósito, a maior parte do meu conhecimento tanto sobre a biografia de Wilde quanto sobre o histórico da peça veio dessa dissertação de Júlio Monteiro. Recomendo, principalmente porque, lá, tem a primeira tradução em português completa por João do Rio – um verdadeiro fanboy wildiano.

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