Comentando: The Longest Journey

Faz ERAS que quero escrever sobre esse jogo e só agora o negócio “saiu”. Com a aproximação do aniversário de 15 anos de lançamento, de maneira alguma podia deixar passar essa data linda ❤ leiam com carinho. Escrevi originalmente pro Steam e agora trago uma versão mais completinha e, lógico: ibagens!

“Eita porra onde foi que eu caí?!”, pensa April, perplexa.

Antes de mais nada, uma apresentação clichê: The Longest Journey é uma série que começou em 1999, escrito pelo norueguês Ragnar Tørnquist e produzido pela Funcom – mais conhecida por causa de The Secret World. É um adventure bem típico, com direito a puzzles muito sem noção (procure sobre Rubber Duck e terá uma ideia), eventual combinação de itens e inúmeras linhas de diálogo. Mas ele brilha na história e, principalmente, nos personagens. O segundo jogo chama-se Dreamfall (2006) e o terceiro e último, Dreamfall Chapters (2014).

Comecemos pela April Ryan, uma garota do interior que vive numa pousada localizada numa metrópole do século 23 e é estudante de artes visuais (até rolou uma identificaçãozinha aqui, hahaha). Ela é uma das, senão a melhor e mais bem-escrita protagonista feminina já concebida para videogames. Sério. É até quase desanimador porque cê percebe de como a gente está realmente carente de boas protagonistas no meio.

Em menos de meia hora de gameplay, April faz a ponte necessária para o jogo tornar-se engajante, exprimindo muito de seu carisma e personalidade do qual se sustentará até o fim. Há momentos divertidíssimos em que ela faz algum comentário cheio de ironia ou espirituoso, mesmo em situações relativamente mais sérias. Ela é, sem dúvidas, uma jovem de 18 anos muito crível, do tipo que você gostaria de ter como amiga. E a qualidade da escrita fica mais foda ainda com a dublagem excepcional de Sarah Hamilton.

Um exemplo de situação engraçada é quando April precisa distrair uma mulher para passar numa porta sem autorização. É um puzzle meio chatão, mas os diálogos são o máximo:

longest journey screenshot

“Porque eu sou uma vadia cruel e amo te torturar. Na verdade, fiz com que minha missão de vida seja te caçar para todo o sempre pra pedir formulários e documentos inúteis”.

Quase todo mundo com quem você interage, por mais secundário que seja, é surpreendentemente carismático. Dentre eles, há dois dos melhores amigos de April, que frequentam a mesma faculdade: Charlie e Emma. Charlie é um cara adorável e gentil que trabalha no The Fringe Café como atendente e é estudante de dança. Já Emma é especializada em “holoescultura” e fica de altas fofocas com a April, além de flertar com frequência. Os três vivem juntos na mesma pousada, The Border House.

A história por trás desse título é tão bacana que merece um parágrafo à parte. Fiona, dona do local e campeã dos diálogos espirituosos, conta que ela e sua tímida namorada, Mickey, se inspiraram nas pousadas inglesas clássicas do interior e decidiram adotar o formato. A ideia é que ele serviria como refúgio pra jovens estudantes e artistas pobres, e o “borda” no nome se dá tanto pela dicotomia espírito/tecnologia quanto pela pousada estar entre Venice e Newport.

Olha como a frente é daora, cara, quem não moraria aí?

Contada como um enorme flashback, a história começa quando o chamado “guardião do Equilíbrio” some repentinamente do seu local. Em seguida, logo depois que April nos é apresentada, ficamos sabendo que existem dois mundos interconectados e dos quais começam a passar por problemas justamente pela falta do “receptáculo” necessário pra manter o Equilíbrio nos eixos. April, por sua vez, se envolve no problema a partir do momento que viaja involuntariamente para o mundo mágico de Arcadia durante um sonho. Isso vai se intensificando com o tempo e mais informações são reveladas através de um homem excêntrico de sotaque carregado chamado Cortez. “You see, señorita, mystery is important” é uma ótima maneira de resumir sua postura nas primeiras horas de jogo.

A partir daí, acompanhamos a protagonista com seu grande dilema de carregar uma responsabilidade absurda nas costas (de salvar dois mundos), arriscar a pele várias vezes em prol das outras pessoas/criaturas, lidar com seus demônios internos – especialmente envolvendo o pai, outrora violento – e com um poder de viajar entre as duas realidades que sequer tem domínio. Além de, é claro, ser vista por muitos como a provável nova guardiã do Equilíbrio, substituído a cada mil anos. A pressão vem praticamente de todos os lados.

longest journey crow

Após fazer uma troca com um mágico, April liberta esse corvo aí, o qual passa a chamá-lo de Crow. Ele vai te acompanhar por um bom tempo e é o maior ~alivio cômico~ da história: “Ei, não, não foi isso que eu quis dizer! Eu estava sendo sarcástico. Sabe o que “sarcástico” significa? Tu fala Altongue, né, né?”

Essa descrença diante de um mundo mágico, o atrito entre “ciência” (no sentido do senso comum) e magia, somado ao destino de mundos nas mãos de uma única pessoa pode soar bastante clichê (e soa mesmo). Mas confie em mim quando digo que o desenvolvimento da história vai muito além dessa humilde resenha, mostrando um lore riquíssimo para esse universo fantástico.

Nessa (realmente) longa jornada, com aproximadamente 20 horas de duração e dividido em 13 capítulos, um monte de acontecimentos se desenrola no que equivale a cerca de uma semana no mundo de April. Mas é tanta coisa uma atrás da outra que eu, pelo menos, tive uma enorme dificuldade de acompanhar tudo =P o que eu escrevi aqui nada mais é do que uma mera fração do conteúdo do jogo.

April dando um couro do capitão babaca do The White Dragon por dizer que mulher não pode viajar no navio após derrotar um mágico que ‘prendera’ o vento: “Isso tá mais pra um monte de merda machista pra mim. Mas a escolha é sua. Tenho o vento no meu bolso, agora você aprenda a tratar as mulheres com um pingo de respeito”.

The Longest Journey, não à toa, costuma ser citado como um dos melhores adventures em listas de joguinhos por aí. E é um dos meus favoritos, sem dúvidas. Se você nunca jogou nada da trilogia, eu realmente recomendo que você dê uma chance. Mesmo se a sua tolerância a adventures mecânica e graficamente datados não for das maiores.

Leia também sobre a continuação, Dreamfall!

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Um comentário sobre “Comentando: The Longest Journey

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