Comentando: Enslaved – Odyssey to the West

A qualidade do character design compensa, e muito, a falta de uma variabilidade significativa de personagens.

A qualidade do character design compensa, e muito, a falta de uma variabilidade significativa de personagens na história.

Construído a partir de uma releitura da fábula chinesa Jornada ao Oeste de Wu Cheng’en, Enslaved era um jogo exclusivo para consoles desde 2010 até receber um port (péssimo) para PC em outubro do ano passado, quando finalmente pude matar minha curiosidade do que se tratava. Depois de zerá-lo, concluí que precisava ler o conto original para entender melhor o que a Ninja Theory manteve no jogo e, quem sabe, entender seu final bizarro e mal explicado. Minha referência, assim, é a versão condensada de David Kherdian, o livro Macaco: Uma Jornada para o Oeste. Mesmo não sendo o ideal, dá pra traçar alguns paralelos com as influências do jogo.

Tudo começa no que é chamado de “slave ship”, uma nave na qual transportam-se tanto robôs quanto humanos – sugerindo, a princípio, estarem sob o domínio das máquinas. O protagonista, Monkey, está preso numa espécie de cápsula ovalada [1]. A mulher que está à sua frente, Trip, consegue escapar da sua cela para, logo em seguida, a nave começar a sofrer avarias. Quando consegue se libertar após algumas explosões, Monkey vá atrás da garota enquanto precisa lidar com o sistema de segurança, recuperar parte de seu equipamento [2] e fugir antes que o navio colida (que é também onde a maioria das mecânicas são apresentadas). Você cai numa Nova Iorque completamente em ruínas e, quando Monkey acorda ao lado de Trip, descobre que ela colocou um diadema modificado de escravos nele [3] para não ser atacada e sugerir uma troca: leve-a de volta para sua aldeia para, assim, receber sua liberdade de volta.

A forma em que Monkey e Trip se conhecem e se unem me remeteu muito à de Elika e Prince no reboot da série. Os dois se veem numa situação adversa e inicialmente são quase antagônicos um do outro, mas não demora muito pra formarem uma amizade e começarem a se ajudar mutualmente – apesar de Trip, penso eu, tão ter um poder de intervenção tão grande como Elika. Por outro lado, você depende dela pra comprar upgrades (sem nenhuma justificativa aparente) e usar cura adicional. Aos poucos, um vai tornando-se mais emocionalmente dependente do outro, a ponto de Monkey, a partir de um momento específico, decidir negar sua desejada liberdade.

A "nuvem" de Monkey que está mais para um dos discos de Tron.

A “nuvem” de Monkey que está mais para um dos discos de Tron (e é muito útil quando o jogo te permite usar).

No original de Wu Cheng’en, Monkey procurava pelo Caminho que o tiraria da “roda da reencarnação”, ou Samsara, tornando-se imortal. E ele consegue, mas de uma forma pouco nobre: encarregado de cuidar do Jardim de Pêssegos Imortais, ele inadvertidamente come vários deles para, logo depois, invadir os Salões do Céu durante um banquete, adormecer os convidados, comer o que seria servido e, principalmente, beber o Elixir Dourado dos imortais preparado para a cerimônia. Tudo isso, somado às inúmeras tantas travessuras contatas no livro, faz com que ele finalmente seja capturado (após MUITO esforço) e aprisionado durante 500 anos. Sua libertação acontece após garantir que iria acompanhar Hsuan-Tsang (também chamado de Tripitaka [4]) como seu discípulo e protetor para o Oeste. É neste ponto que surge o papel do diadema e a razão da jornada: a busca pela iluminação espiritual.

Em Enslaved, é através deste diadema em que os elementos do HUD são justificados – a ponto de Monkey demonstrar estranhamento com aquilo no seu campo de visão – e foi a solução dos desenvolvedores tanto como invisible wall quanto para impedir que o jogador tente prosseguir sem Trip. Ela explica desde o começo que, se ela morrer, você também morre, fazendo com que o protagonista sinta dores ao se distanciar demais dela (com exceção de cenários fechados) e também tome um game over na fuça nas raras vezes em que ela realmente está em perigo. Pena que não arranjaram justificativas bem-feitas como essa pra elementos acumulativos do cenário, como as esferas de energia pra adquirir os upgrades. Mesma coisa para as bolas azuis luminosas, espalhadas em alguns locais, que servem pra dar um “boost” na sua nuvem voadora.

Ao contrário de cenários pós-apocalípticos mais comuns, em que a destruição generalizada provém de bombardeamento nuclear (como em Fallout) ou mesmo de inúmeros desastres naturais (como em I am Alive), o ambiente exuberante de Enslaved é o mesmo que The Last of Us se utilizaria posteriormente: a natureza continua viva e forte; quem decaiu foi “apenas” a humanidade. Este é um dos fatores que formam a belíssima direção de arte do jogo, esbanjando de um colorido absurdo, cenários e robôs cheios de detalhes e muita perspectiva aérea. A qualidade visual, sem dúvidas, é um dos, senão seu maior ponto forte.

É interessante notar a forma em que a Ninja Theory transpôs as características dos personagens principais do conto original para o jogo. Além da grande plasticidade da movimentação e necessidade constante de escalar alguma coisa, Monkey tem uma “cauda” sugerida devido à um pedaço solto de tecido [5]. Pigsy, um velho amigo do pai de Trip e quase o alívio cômico do jogo, é bem desagradável, mulherengo e também quem te meterá em algumas encrencas por puro ciúmes [6]. Na versão resumida de David Kherdian, seu caráter quase não é explorado, mas a julgar pelo pouco que li sobre Jornada ao Oeste, parece que o Pigsy do jogo é a adaptação mais próxima do original. Não fosse pela existência de parâmetros, diria que a justificativa para Pigsy ter modificado sua aparência para se assemelhar a um porco praticamente não existiria.

Em relação à jogabilidade, ela não é nada de excepcional. Enquanto platformer é funcional, mas acaba incomodando tanto pela repetividade (devido ao modelo constante de plataforma-combate-cutscene) quanto por ser bastante restritivo no que diz respeito aos locais possíveis de se agarrar durante uma escalada ou até mesmo para pisar – o que é pior ainda pra mim por ter zerado Assassin’s Creed II muito recentemente. Apesar de bastante linear, o jogo conta com alguns cenários relativamente abertos e eles nem sempre são intuitivos, tornando essas limitações artificiais bastante incômodas.

O combate com o bastão é agradável quando se tem poucos inimigos e é numa área sensivelmente grande, porque se o bicho pega, especialmente quando o jogo introduz robôs mais fortes e com escudo, a defesa de Monkey é péssima e ele não consegue bloquear todos os ataques. É aí em que a esquiva e o cover tornam-se quase indispensáveis. O jogo também conta com alguns combos, visualmente bastante satisfatórios. Infelizmente, há pouquíssimas opções para executar.

enslaved screenshot trip

SPOILER SOBRE O FINAL!
(se não quiser ler, vá ao final do texto)

Lembra de quando eu falei, lá em cima, da esperança de entender o maldito final lendo o conto? Pois bem, acredito que consegui chegar a alguns aspectos razoavelmente concretos.

A questão principal se dá pelo caráter Matrix de ver inúmeras pessoas vivendo as memórias de alguém que viveu antes da guerra. O primeiro elemento que salta aos olhos é que todos os fragmentos de memórias vistas eventualmente por Monkey, além das cenas do Andy Serkis falando, são imagens e gravações reais, e não renderizações 3D como o resto do jogo. Será que essa diferença estética é pra enfatizar o quão convincente e tentador é viver essas memórias, diante de um cenário devastado? Sabe-se que muitas pessoas estão desaparecidas através de cartazes bem no início do jogo. Isso sugere que, no mínimo, boa parte dos escravos encontrados na Pirâmide foram sequestrados pelos mechs e vivem neste mundo ilusório inconscientemente.

No livro, Tripitaka e seus discípulos vão para o Pico do Falcão Espírito para pegarem as escrituras. No meio do caminho, se deparam com um turbulento curso d’água. Um tronco escorregadio era a única forma terrestre de atravessar, mas com exceção de Monkey, os outros não conseguiam passar por ele facilmente. É aí que aparece um barco sem fundo para levá-los ao outro lado. Neste processo, eles observam seus corpos terrestres flutuando correnteza abaixo, indicando o fim da jornada. No jogo, é bem possível que a Pirâmide seja justamente esse limiar entre matéria e espírito, já que as memórias representariam justamente a percepção de um micro-universo em comparação à vastidão do mundo real; por mais doloroso que seja. Além disso, quando o monge volta à China e lê alguma das escrituras originais no templo mais sagrado de lá, “uma multidão de almas perdidas foram salvas da escuridão e o verdadeiro ensinamento foi promulgado por todo o império”. Como é Trip quem destrói as tubulações que mantinham a Pirâmide conectada com os escravos, é bem capaz que este seja o paralelo com a história original.

Por último e não menos importante, temos o sacrifício de Pigsy. Por ser o único a não alcançar a espiritualidade plena como descrita no rodapé, sua morte prematura pode ser entendida como o melhor, senão o único caminho para a redenção devido à sua posição na hierarquia espiritual.

FIM DOS SPOILERS

Apesar dos problemas com Enslaved não serem insignificantes — especialmente se você jogar o port pra PC, no qual tive um monte de freezes enquanto jogava –, isso não deve ser encarado como empecilho na hora de apreciá-lo. Como conjunto da obra, é um jogo memorável e que, apesar da história conter muitos elementos abertos e (quase) inexplicáveis sozinhos, ela pode ser fascinante se você estiver com disposição em conhecer Jornada ao Oeste. Caso tenha interesse, a Conrad começou a publicar, há alguns anos, a história traduzida direto do chinês em três volumes. O problema é que ela perdeu os direitos de publicação no meio e é bem improvável que o terceiro volume apareça por aí um dia. Agora, se você quiser se contentar com a versão condensada na qual me baseei, saiba que o ritmo da leitura é muito agradável, mas prepare-se pra encarar uma revisão feita nas coxas e tradução sofrível em alguns pontos.


[1] No livro, conta-se que Monkey nasceu através de “uma pedra mágica de dimensões e propriedades imortais. Ela foi fecundada pelas sementes do Céu e da Terra e pelas essências do Sol e da Lua, até que, certo dia, foi inseminada por inspiração divina e tornou-se grávida de um embrião divino”. No jogo, tal nascimento é representado com Monkey escapando de sua cela.

[2] O jogo nunca explica, entre outras coisas, como Monkey conseguiu suas armas, mas o conto original sim. O bastão retrátil, descrito como uma clava no livro, se constitui de “um raro pedaço de ferro mágico que, certa vez, ancorou a Via Láctea”. O Rei Macaco procura pelo seu vizinho, o Rei Dragão, para atormentá-lo em procurar por uma arma satisfatória. Primeiro testou uma espada grande, uma forquilha e uma alabarda gigante, mas nada o agradou. A ideia de oferecer a clava foi da Mãe Dragão. Não obstante, Monkey chega a ameaçar o Rei Dragão caso ele também não dê uma indumentária marcial.

[3] Para minha surpresa, isso também existe no conto chinês original. A bodhisattva Kuan-Yin pede permissão a Buda em partir para o Leste e procurar por um peregrino que busque as escrituras budistas. Ela recebe alguns objetos, dentre eles uma faixa de cabeça. Buda, então, explica que: “Se o peregrino encontrar-se com qualquer monstro com poderes mágicos que deseja ser seu discípulo, o qual, de tempos em tempos, revele-se mal intencionado ou ingovernável, deve colocar esta faixa ao redor da cabeça de seu discípulo. Então, sempre que recitar o encantamento pertencente àquela faixa de cabeça, o monstro sentirá tamanha dor que será facilmente persuadido a obedecê-lo”.

[4] Na própria história, um personagem explica para Hsuan-Tsang que as escrituras sagradas budistas, na Índia, são referidas como Tripitaka – e então sugere que ele adote o termo como nome espiritual. Esta é uma das poucas características do monge mantidas em Trip, além da sensível fragilidade e benevolência.

[5] No conto de Wu Cheng’en, Monkey é extremamente travesso, arrogante e indisciplinado. Apesar de, inicialmente, buscar pelo caminho espiritual, ele é facilmente “corruptível” em pouco tempo. Em Enslaved, sua personalidade é bem mais atenuada e a agressividade do personagem é, em essência, justificada pelo fato de estar sob o controle do diadema. Além disso, enquanto as habilidades do Rei Macaco se devem à magia e espiritualidade (como planar acima das nuvens), o jogo se foca na força física de Monkey pra boa parte das tarefas.

[6] Quando Pigsy é apresentado na história, ele revela que era o marechal da água do Rio Celestial até o dia em que ficou bêbado e assediou a Deusa da Lua. Assim, o Imperador de Jade o baniu para as Regiões Inferiores. Enquanto procurava onde reencarnar, ele acidentalmente entra no ventre de uma porca, fazendo com que ele recebesse uma aparência meio porco, meio humana. Sob esta forma, ele pecou mais ainda por ter se alimentado de carne humana. Mesmo após se encontrar com Kuan-Yin, abraçar o budismo e aceitar a ajudar Tripitaka, ele não alcançou a iluminação plena como o monge e o Rei Macaco. A ganância e a luxúria, segundo Buda, nunca se extinguiram do seu ser – sem mencionar a sua gula, que permaneceu até o fim. Sua função no plano espiritual, portanto, é de “Limpador de Altares”.

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