Comentando: Gone Home

gone home wallpaperVocê já deve ter ouvido falar sobre esse jogo. É o primeiríssimo lançamento do estúdio The Fullbright Company. Muita gente o elogiou por aí (mas muita MESMO), e algumas pessoas que conheço de vista enfatizaram de que se tratava de um jogo feminista. Então eu havia motivos mais do que suficientes pra descobrir o que o fazia ser tão marcante.

A grande estrela dourada

A maior parte da graça de Gone Home está na profunda pessoalidade que ele consegue alcançar através de sua narrativa. E ela consegue ser tão, mas tão pessoal, íntima e envolvente que qualquer comentário que dê uma esmiuçada na história é um spoiler em potencial – tanto que é comum haver recomendações por aí de que você deve ler o menos possível sobre o jogo antes de jogar. Mas é possível contar algumas informações razoavelmente seguras que irão transparecer ainda bem no começo: profundamente ambientado na década de 90, você é Katie, uma garota de 20 anos que estava viajando pela Europa e, ao chegar na casa que sua família se mudou recentemente, não encontra ninguém lá.

Uma longa “fase”

Existem muitas formas de contar histórias, e a mais fácil de compreender de imediato é aquela que segue uma lógica linear e causal dos fatos, explicitando o que aconteceu nesse processo. Já outra forma menos “completa” e mais subjetiva é o conceito de disnarrativa presente em jogos como Bientôt l’été e Dear Esther – o esforço para entender qualquer coisa que pareça minimamente palpável é muito maior. Gone Home segue alguns princípios utilizados por Dear Esther; mais especificamente em contar uma história através da intensa exploração do cenário, olhando cada canto poligonal possível. A maior diferença que os separa num abismo é que Gone Home, além de permitir uma interação infinitamente maior e sem passar pela falsa impressão de cenário aberto, possui uma história muito mais objetiva e, por vezes, certeira em provocar empatia e nostalgia à quem jogar.

Um armário trancado

O grande foco do jogo está na irmã de Katie, Samantha – por um bom motivo. Tanto que, quando você interage com objetos importantes, ativará um audiolog da garota, descrevendo passagens de seu diário. Mas não é só isso: entre inúmeros documentos, cartas, papel jogado no lixo, pastas, cartões postais, anotações e fotos, você também conhecerá um pouco mais sobre a mãe, o pai e o avô. Mas nada é entregue verdadeiramente mastigado; o jogo confia na sua capacidade de ligar cada fragmento de informação.

Uma característica curiosa em Gone Home é que, apesar da protagonista ser muda, ela se manifesta de uma forma sutil quando você posiciona o cursor em determinados objetos. Teve até mesmo um momento que peguei uma folha de caderno pra ler e, segundos depois, a leitura parou abruptamente sem que eu mandasse. Quando tentei pegá-la de novo, Katie se recusava a continuar a cada vez que clicava.

Uma coisa que não sabia antes de jogar era de como a história tem vários momentos de suspense. Na prática não acontece “nada demais” nesse quesito, mas foram várias as vezes que ficava com cagaço em certas partes do cenário, especialmente no final. E falando do final, ele me desmontou de chorar. Foi uma das poucas vezes em que o jogo fechou de maneira satisfatória pra mim, além de ter me emocionado mais do que quando joguei To The Moon.

“Kicking Against the Patriarchy”

Falando resumidamente, você deveria jogar Gone Home. Ele definitivamente é uma joia rara entre jogos indies atuais, que te faz lembrar que uma história cotidiana pode ser tão ou mais intensa que uma ficção medieval, científica ou qualquer outra situação que nos permite sentir o não-real. E o melhor é que ele está mais acessível graças à tradução em português que a galera do Jogabilida.de produziu! Não está tão redondinha quanto a de To The Moon, também feita por eles, mas não chegou a atrapalhar a imersão. Não foi o meu caso, mas dá pra fechá-lo em uma única sentada (3 a 4 horas pra baixo), dependendo da sua disposição e tempo gasto do que for ler e analisar. Vale muito, muito a pena.

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3 comentários sobre “Comentando: Gone Home

  1. É, não dá pra negar que tem muita gente falando o quanto o jogo é uma experiência boa! Uma pena que o valor do ingresso está um pouco caro por agora, mas assim que puder, vou pega-lo. Bela resenha!

  2. Ótimo jogo, uma linda estória e uma importante mensagem. Acho que é assim que poderia resumir essa obra prima.

    A ambientação do jogo foi muito bem feita, o que causou uma certa comoção em algumas pessoas no lançamento por acharem que o título se tratava de um gênero survival horror (apesar de que é possível você levar, digamos, “um certo susto” quando estiver tão concentrado em achar o interruptor para ligar a luz em algum quarto escuro e você acabar ouvindo um trovão… Não que isso tenha acontecido comigo, é claro u_u ).

    Sinceramente, tive que me segurar no final; acho que já estava começando a acreditar que era de fato a irmã da garota, rs.

    Uma dica importante para os que já jogaram: Se você tem dúvidas sobre as anotações do jogo (se conseguiu achar todas ou não etc) tente explorar pela pasta “AppData” do seu Windows (caso esteja usando o 7 para cima). Lá está todo texto utilizado no jogo em .txt (acho que foi assim que o pessoal conseguiu fazer a tradução).

    Ah! E não se esqueça: “Stick with the group, Katie.”. = )

  3. Pingback: O pôr-do-sol da Tale of Tales | Colchões do Pântano

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