Retornando ao problema das armaduras femininas

Queen Artesia leads her army

Ilustração por Mark Smylie

Apesar de definitivamente não ser um assunto novo, tenho reparado que discussões sobre a forma que as mulheres são vestidas na ficção (especialmente de caráter medieval) têm estado em polvorosa nas últimas semanas. Como o tumblr Repair Her Armor e, mais recentemente, esse texto da Aline Valek. E antes disso, houve outras iniciativas similares como esse redesign de super heroínas totalmente vestidas.

Tenho prestado atenção a algumas dessas discussões e tenho refletido um pouco sobre os argumentos que são comumente usados, principalmente aqueles que eu também usava bastante desde então. Por isso, adianto que esse post será uma tentativa minha de organizar as ideias que tenho em mente e muito provavelmente estarei repetindo várias (mas VÁRIAS) coisas consideravelmente óbvias ou nem tanto.

Suspensão de descrença

Qualquer pessoa que já parou pra entender um pouquinho sobre a construção de uma história ficcional sabe que, se ela não tem a pretensão de simular um universo crível, histórico ou não, deve se basear em uma lógica minimamente razoável para explicar as decisões da narrativa. Um universo como o de Mass Effect pode fazer todo o sentido do mundo… até que apareça um unicórnio robótico gigante feito de doces verdes no meio de uma missão. Se não houver nenhuma justificativa convincente pra isso – ou se você não for o Douglas Adams –, então a história foi muito mal pensada.

No que diz respeito às armaduras da fantasia em especial, é fácil perceber de como a necessidade de coerência costuma cair muito mais no visual da roupa em si (formatos, cores, símbolos, material, estilo) do que na sua funcionalidade. Um exemplo interessante é apontado pelo autor do texto Fantasy Armor and Lady Bits é a armadura de Sauron: suas ombreiras não são nada práticas, mas o conjunto da obra faz sentido dentro do universo que está inserido. Em outras palavras, uma armadura que cobre o corpo todo não é necessariamente funcional. Poderíamos traçar um parâmetro com armas: elas não precisam funcionar de maneira totalmente coerente para ser usada ou mesmo apreciada. A diferença é que apenas esse problema não é algo que realmente incomode na maioria das vezes – e, portanto, é um argumento falho por si só.

Quando alguém critica a lingerie de metal que muitas mulheres já usaram e continuam usando na ficção, sempre brota de algum lugar aquele comentário espertalhão de “mas Conan também usa tão pouca roupa quanto!”, descontextualizando o fato de que bárbaros como ele não tinham tecnologia suficiente pra terem proteções elaboradas nesse nível. Além disso, se homens seminus tivessem o mesmo nível de apelo em comparação a mulheres seminuas na nossa cultura, topless não seria considerado como atentado ao pudor, por exemplo.

E se fosse com um homem?

Arte conceitual de Lord of the Rings Online por Wesley Burt

Arte conceitual de Lord of the Rings Online por Wesley Burt

Esse é um parâmetro que acredito ser mais seguro do que o anterior: se aplicássemos tais armaduras para uma figura masculina, será que ela pareceria tão normal ou aceitável em relação a uma mulher? Por que será que armaduras e demais vestimentas criadas originalmente pra homens são tão mais facilmente adaptáveis para mulheres? Uma comparação como essa também não é novidade (com suas devidas variações), como está bem ilustrado no The Hawkeye Initiative, mas com foco maior em poses. Embora seja exceção, há alguns poucos casos de personagens masculinos que usam uma quantidade de armadura similar às femininas – do não-funcional ao esdrúxulo – como em Tera Online.

Você pode afirmar que esse tipo de coisa também é prejudicial “porque ridiculariza homens em situações afeminadas e, portanto, condena o que é derivado do feminino”, mas é fundamental lembrar que essa foi uma maneira encontrada para contrastar e demonstrar a forma frequentemente submissa e vulnerável que mulheres são retratadas para associar à sensualidade – algo que soa absurdo para um modelo idealizado masculino, tipicamente numa situação dominadora ou dono de si. Como um cara à mercê do olhar aprovador e vontades de outra pessoa poderia ser atraente? Que impacto produziria? Teria apelo heterossexual também? Muita coisa que compõe o estereótipo da feminilidade (mas não tudo, perceba) é bastante nocivo por si só e é mais fácil representá-las na figura do dominante (homem) do que o contrário. Talvez esse não seja o método mais eficiente, de fato, mas foi o que acabou se popularizando mais.

Uma ocasião em especial que foi bem eficiente em ilustrar esse tratamento extremamente desigual (e machista) foi relatado no mesmo tumblr.

Armadura pra quem, cara-pálida?

Quantas personagens femininas que vemos por aí foram feitas com a intenção de outras mulheres se projetarem nelas? Se sentirem empoderadas? Quantas foram criadas com o intuito de serem verossímeis, humanas? E quantas delas foram feitas essencialmente como escopo pra satisfazer fantasias, caprichos e bronhagens hétero-masculinas? Tudo isso deve ser questionado quando falamos de armaduras femininas. Quando alguém representa “empoderamento” (muitas aspas aqui) através de calcinhas ou tapa-sexo de metal, até que ponto tal prática teve uma reflexão real sobre o contexto em que ela é apresentada? Elementos como esses estão tão introjetados no nosso imaginário que nem sempre o reproduzimos com o objetivo consciente de se tornarem conteúdo masturbatório fácil – ainda que isso não influencie no seu impacto.

Basta ser mulher

Quando colocamos em debate a problemática que existe ao repetir o padrão usado em armaduras femininas, sempre vai aparecer algum babaca que irá distorcer o argumento dizendo que ela é ruim “porque deixa a mulher com roupa de vadia”. ESSA NÃO É A QUESTÃO! Primeiro porque não existe isso de “roupa de vadia” (blerg), segundo porque a exposição conveniente do corpo feminino, quando expressa por personagens fictícias, foi uma apropriação da cultura machista como um dos tantos meios para reforçar a objetificação feminina e seu propósito decorativo. Isso não quer dizer que toda e qualquer representação de mulheres despidas (ou algo próximo disso) seja inerentemente discriminatório – o que afirmará tal coisa dependerá do seu conjunto contextual. Por isso, é extremamente falacioso comparar tais personagens objetificadas com mulheres reais que escolhem como querem apropriar e usar seus corpos para satisfazer suas próprias vontades referentes à sexualidade.

Realismo conveniente

Embora esse ponto não esteja diretamente relacionado às armaduras, existe um argumento razoavelmente comum que defende o machismo presente na ficção “para ajudar a manter o realismo do seu universo”. O ponto que a Aline dá no seu texto é algo que concordo: “[…] Se na ficção podemos nos permitir criar coisas que não existem na realidade, por que então o machismo presente nessas histórias precisa ser tão realista?”

É claro que, se houver um objetivo claro de criar um ambiente patriarcal, especialmente de caráter histórico, inevitavelmente elementos machistas e misóginos surgirão, mas isso não é desculpa para reforçar a desigualdade de gêneros de maneira acrítica e descerebrada. Um exemplo que vejo muita gente usar é a série As Crônicas de Gelo e Fogo. O patriarcado está ali, mas assim como na vida real, existem mulheres multifacetadas, completas, que não se conformam com a situação que foram submetidas e lutam contra dentro de suas respectivas realidades.

Isso me faz lembrar de uma das coisas que me incomodavam profundamente ao ler O Último Desejo (saga que derivou The Witcher): tínhamos cenas de assédio, estupro e similares, mas todas as personagens femininas – com ou sem identidade definidas – pareciam completamente indiferentes pelo que passavam. Ou melhor, o autor era completamente indiferente.

Mas ela PRECISA ser feminina/sexy/atraente/parecer que é mulher

Na dúvida, apele pro boobplate que aí fica super tranquilo, confie em mim.

É muito difícil escolher quais desses pontos que abordei até agora me irritam mais, mas esse em questão é particularmente incômodo. É razoavelmente comum ver pessoas defendendo roupas para mulheres com mais pano e menos cortes estratégicos alegando que “ela continua feminina”. Mesmo em situações bem intencionadas. Aqui parece existir a falácia do preto-ou-branco: se a personagem não foi feita pra ter apelo visual bronheiro, ela muito provavelmente vai ficar absolutamente sem graça ou até mesmo feia na visão dos outros. Ou ainda, criticar o problema é querer que elas vistam burca! Sério, tem gente que consegue falar umas groselhas desse tamanho.

Por que há tanta preocupação e necessidade de lembrarmos constantemente que é uma mulher? Por que ela depende tanto assim de beleza e atração? E se ela for andrógena? Ou próxima de uma pessoa “comum”, como a Alyx de Half-Life 2? Existe alguma preocupação/exigência desse nível quando falamos de personagens masculinos?

Eu, como ilustradora e interessada em trabalhar com character design, entendo que pode ser muito interessante fazer tais diferenciações na roupa dos personagens por gênero para que as roupas duplicadas não pareçam uma escolha puramente preguiçosa de desenvolver algo mais elaborado, mas existem casos em que ela pode ser feita de maneira mais sutil (como na arte conceitual de Wesley Burt) ou ser muito pouco necessária (como a escolha do sexo do seu personagem num RPG qualquer que te permita isso). Sem falar que podemos muito bem usar outros parâmetros de acordo com a sua proposta, tais como: classe, nível de habilidade, idade, pertencimento de um grupo específico, raça, território, etc.

Para finalizar

Se você teve a paciência de ler tudo isso, dou meus parabéns porque, honestamente, após terminar esse texto, fiquei com uma forte impressão de que estava desenhando as mesmíssimas coisas que todo mundo sabe. Mas a julgar pelo cerne de alguns dos trocentos comentários que li por cima no texto da Aline Valek, concluí que isso não é totalmente verdade. Minha tentativa em fazer esse texto era não apenas em expressar a maior parte do que tinha em mente de maneira logicamente compreensível, mas também em deixá-lo da maneira mais amarrada possível especialmente pra quem nunca se questionou efetivamente diante da questão e, na pior das hipóteses, acha que tudo isso não passa de picuinha ou “falta de louça pra lavar”.

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5 comentários sobre “Retornando ao problema das armaduras femininas

  1. Parabéns pelo texto, exemplificou bem e foi bem claro, li anteriormente o texto da Aline, que também é maravilhoso e infelizmente esse tipo de coisa é inacabável, a gente explica, argumenta, fala, explica de novo, mas depois de um tempo ouvimos as mesmas ladainhas machistas.

    • Obrigada!
      Eu não achei o texto da Aline maravilhoso – na verdade, ele foi bastante fraco pra mim (bem mais do que outros textos que ela costuma escrever), especialmente porque ela se sustentou muito no argumento da funcionalidade. Por esse ser um dos maiores pilares do texto, ele acabou ficando ruinzinho. Então uma das maiores preocupações que tive ao fazer no meu era em explicitar de porque ele é falho. É complicado, porque essa é uma conclusão tão difundida por aí que nem sempre paramos pra questionar. Parei pra pensar nisso quando vi uma amiga dizendo “tem armas que não são funcionais e ninguém reclama”. Soou meio rude na hora, mas acabou sendo fundamental pra mim.

      Sobre ser inacabável, creio que isso se deve muito mais pela qualidade dos argumentos do que por causa do tema. Às vezes damos voltas, ou defendemos alguma coisa com excesso de brechas. Por isso procurei problematizar a questão da melhor maneira possível, concentrando as groselhas mais comuns.

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  3. Vamos lembrar que dependendo da mulher tem que ter um baita espaço na frente pra caber os seios, porque se for aquelas armaduras coladas no corpo ela não vai aquentar 10 min usando a armadura.

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