Comentando: A Realidade em Jogo

Há pouco tempo, encontrei duas palestras de uma game designer chamada Jane McGonigal, sendo elas Gaming can make a better world e The game that can give you 10 extra years of life. Lendo tanto o nome de um quanto de outro já é tendência ficar com um pé atrás, afinal como jogos poderiam ser tão benéficos a ponto de melhorar algum problema mundial ou aumentar sua expectativa de vida? Quero dizer, jogos têm potencial para aprendermos coisas, contar histórias épicas e tudo o mais… mas será que isso não é viajar na maionese demais? Não tinha certeza se concordava com o ponto de vista dela – contado de uma forma tão entusiasmada e otimista – ou não.

a realidade em jogo capaPosteriormente, descobri que ela tinha lançado em 2010 o livro Reality is Broken, e foi só esse ano que ele chegou em terras tupiniquins com o nome A Realidade em Jogo: Por que os games nos tornam melhores e como eles podem mudar o mundo. A grosso modo, é praticamente a mesma coisa que ela aborda na primeira palestra (já na introdução ela cita Heródoto e o uso dos jogos para aliviar o sofrimento ocasionado pela fome), mas obviamente de forma mais aprofundada e expansiva.

Os 14 capítulos do livro estão divididos em três partes, sendo elas:  Por que os jogos nos deixam mais felizes (sobre as emoções que são cuidadosamente elaboradas pra serem geradas), Reinventando a realidade (sobre os ARG’s, seus benefícios e como são feitos) e finalmente Como os grandes jogos podem mudar o mundo (jogos de multidão e sobre objetivos mundiais urgentes, desde a cura do câncer até em saber se adaptar em situações extremamente adversas).

A primeira coisa que chama a atenção é de como a leitura é bem fluída e de fácil compreensão. Não é maçante e nem arrastada. Depois, percebe-se que ela se baseou em inúmeras informações para seus argumentos, tanto que as últimas páginas são inteiramente dedicadas a informar suas fontes (praticamente toda a bibliografia). Além disso, como ela mesma deixa claro já nas primeiras páginas, o livro foi escrito de forma que “não-gamers” possam acompanhar o raciocínio sem grandes dificuldades. De fato, ao citar algum jogo para dissertar em cima, Jane costuma descrevê-lo bem, o que é bem útil quando ela cita algum jogo que desconheço. Outra coisa que me fez sorrir algumas vezes era a identificação que rolava em alguns pontos, que sem dúvidas deu um gostinho a mais à leitura – especificamente os primeiros capítulos, com maior foco nas emoções proporcionadas pelos jogos, como o fiero, que “é a palavra italiana para ‘orgulho’, e tem sido adotada por criadores de jogos para descrever um estágio emocional para o qual não temos uma boa palavra em outras línguas. Fiero é o que sentimos depois de triunfarmos sobre a adversidade. Só o conhecemos quando sentimos – e quando o vemos“.

A ideia-base que a autora defende ao longo dos capítulos é que o fato das pessoas gastarem tanto tempo de suas vidas em jogos (a ponto de equivalerem um emprego de meio-período, senão mais) se dá pelo modelo de recompensa adotado na sua mecânica. Os jogos, em comparação à realidade, são muito mais eficientes para atender nossos desejos, recompensar nossos esforços de maneira clara e imediata, dar desafios proporcionais ao nosso nível de habilidade (Dark Souls não conta, se é que me entende), e ainda, nos convencer a persistir em algo mesmo fracassando a princípio, mas sem ultrapassar a linha de tolerância que ocasionaria frustração. Em outras palavras, ela se baseia muito na psicologia positiva.

Não concordo muito com essa generalização não só porque nem todos os jogos necessariamente seguem esse modelo de recompensa à risca, como também pode variar de acordo com cada jogador e sua forma de encarar tais desafios  (além da eficiência da curva de aprendizagem). Dizer que sentimentos como pessimismo, ansiedade ou frustração “simplesmente não existem nos jogos”, como a autora pontua claramente na sua palestra, é extremamente exagerado e idealizado demais. Qualquer um que joga há um tempo razoável já se frustrou sim diante de alguma dificuldade.

Ao longo dos capítulos, há momentos em que Jane faz tópicos resumindo quais seriam as “correções da realidade”, ou seja, aplicações dessas estruturas presentes nos jogos que tornariam o mundo real mais atraente. Como são curtos, os transcrevi a seguir. Inevitavelmente eles estão um tanto descontextualizados, mas dá pra ter uma ideia básica de o que você verá no livro.

CORREÇÃO #1: OBSTÁCULOS DESNECESSÁRIOS
Em comparação aos jogos, a realidade é muito fácil. Os jogos nos desafiam com obstáculos voluntários e nos ajudam a empregar nossas forçar pessoais da melhor maneira possível.

CORREÇÃO #2: ATIVAÇÃO EMOCIONAL
Em comparação aos jogos, a realidade é deprimente. Os jogos concentram nossa energia, com otimismo incansável, em algo em qual somos bons e apreciamos fazer.

CORREÇÃO #3: TRABALHO MAIS GRATIFICANTE
Em comparação aos jogos, a realidade é improdutiva. Os jogos nos oferecem missões claras e trabalhos mais práticos e gratificantes.

CORREÇÃO #4: MAIS ESPERANÇA DE SUCESSO
Em comparação aos jogos, a realidade não demonstra esperança. Os jogos eliminam nosso medo do fracasso e aumentam nossas chances de sucesso.

CORREÇÃO #5: CONECTIVIDADE SOCIAL MAIS FORTE
Em comparação aos jogos, a realidade é desconectada. Os jogos criam vínculos sociais mais fortes, e levam a redes sociais mais ativas. Quanto mais tempo passamos interagindo dentro de nossas redes sociais, mais probabilidade temos de gerar uma subcategoria de emoções positivas, conhecidas como “emoções pró-sociais”.

CORREÇÃO #6: ESCALA ÉPICA
Em comparação aos jogos, a realidade é trivial. Os jogos nos tornam parte de algo maior e dão sentido às nossas ações.

CORREÇÃO #7: PARTICIPAÇÃO INTEGRAL
Em comparação aos jogos, as tarefas do mundo real não nos envolvem tanto. Eles nos motivam a participar mais integralmente daquilo que estamos fazendo.

CORREÇÃO #8: RECOMPENSAS SIGNIFICATIVAS NO MOMENTO EM QUE PRECISAMOS DELAS
Em comparação aos jogos, a realidade é supérflua e insignificante. Os jogos nos ajudam a nos sentirmos mais recompensados quando trabalhamos ao máximo.

CORREÇÃO #9: MAIS DIVERSÃO COM ESTRANHOS
Em comparação aos jogos, a realidade é solitária e nos isola. Os jogos nos ajudam na união e criação de poderosas comunidades a partir do zero.

CORREÇÃO #10:  HACKS DA FELICIDADE
Em comparação aos jogos, a realidade é difícil de aceitar. Os jogos facilitam a aceitação de bons conselhos e a prática de hábitos mais felizes.

CORREÇÃO #11: UMA ECONOMIA DO ENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Em comparação aos jogos, a realidade não é sustentável. As gratificações que obtemos ao jogar são um recurso infinitamente renovável.

CORREÇÃO #12: MAIS EPIC WINS
Em comparação aos jogos, a realidade é pouco ambiciosa. Os jogos nos ajudam a definir metas espantosas e a enfrentar, como um grupo, missões sociais aparentemente impossíveis.

CORREÇÃO #13: MIL HORAS COLABORANDO
Em comparação aos jogos, a realidade é desorganizada e dividida. Os jogos nos ajudam a fazer um esforço concentrado – e, ao longo do tempo, nos dão superpoderes colaborativos.

CORREÇÃO #14: PROSPECÇÃO MASSIVA PARA MÚLTIPLOS JOGADORES
A realidade está presa ao presente. Os jogos nos ajudam a imaginar e a inventar o futuro juntos.

Por mais interessante que seja os pontos levantados por Jane, há uma limitação séria aí. A grande maioria dos jogos que ela cita como aqueles que vão realmente fazer a diferença na vida real foram feitos especificamente pra esse propósito (desde os ARG’s como Chore Wars e World Without Oil a “jogos” baseados em crowdsourcing como Wikipédia e Free Rice); portanto, pegar jogos que foram feitos unicamente para fins comerciais e/ou de entretenimento como um League of Legends ou Counter Strike da vida dificilmente poderiam ser usados para esses propósitos mais “nobres” ou mesmo te fazer uma pessoa melhor (a despeito daquelas listinhas de “benefícios dos videogames” que você certamente já se deparou alguma vez).

Na conclusão, suas palavras finais são as seguintes: “Não podemos mais nos dar ao luxo de considerarmos os jogos como algo separado de nossas próprias vidas reais e de nosso trabalho real. Isso não seria apenas um desperdício do potencial deles para fazer o bem de fato – será simplesmente falso. […] Se nos comprometermos com a exploração do poder dos jogos para produzir a verdadeira felicidade e a verdadeira mudança, então uma realidade melhor será mais do que provável – será possível. E, nesse caso, nosso futuro juntos será absolutamente extraordinário”.

Por fim, o saldo é positivo. Por isso, recomendo que deem uma olhada nesse livro e nas palestras da Jane McGonigal. Certamente é um tema que rende pano pra manga. Veja mais informações sobre ela no seu site pessoal!

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3 comentários sobre “Comentando: A Realidade em Jogo

  1. Pingback: Comentando: Bientôt l’été | Colchões do Pântano

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