O horror do level Easy

Há muitas coisas que me irritam na cultura nerd/geek/gamer, e uma que merecia esse post em especial é a concepção tacanha de condenar pessoas que jogam no easy, ou jogos que são ruinzinhos por serem “fáceis demais” (sem ser necessariamente algum social game do facebook, por razões óbvias).

Quem acompanha blogs, sites e fanpages no facebook sobre jogos já notou do quão típico isso é. A preferência de se jogar no nível mais fácil é diretamente associada ao caráter do jogador obviamente “criado com leite com pêra” ou similar. Embora não seja sempre, essa tara por dificuldades extremas muitas vezes está relacionada à nostalgia de quem viveu a época dos jogos com senhas enormes para recomeçar de um ponto específico, ou mesmo quando tinha que zerar alguma coisa numa única sentada (afinal não havia opções). Eu sempre gosto de recomendar este texto do Re:Games que critica a comparação inevitável com Demon Souls por ser “um bom game como nos velhos tempos”. Outro exemplo que mostra de maneira mais cômica essas limitações da época é o Angry Videogame Nerd [*]. Pessoalmente não vejo problema com a nostalgia por si só, mas com a nostalgia burra, sensivelmente presente na cultura gamer.

Não há dúvidas que a concepção de “gamer” está cheia de estereótipos, e muitos se orgulham de carregar esses rótulos com ou sem intenção. E como todo mundo sabe, o estereótipo vem do pressuposto que uma pessoa com determinadas características em comum é automaticamente previsível e com variações irrelevantes de gostos e personalidade. O estereótipo de ~*=GUÊIMER TRÚ=*~ prevê que todo mundo joga alguma coisa com os mesmíssimos objetivos e preferências; portanto, ai de quem contrariar tais sagrados mandamentos! Poser, só pode. É como desprezar alguém por jogar com setas e não com WASD.

As mulheres, então, são as mais estigmatizadas nesse meio, e com isso não seria diferente. Por mais que eu concorde que é muito importante que tenhamos cada vez mais voz na cultura gamer, me desanima quando vejo essas garotas com visibilidade reproduzindo as mesmas merdas internalizadas que só as prejudicam, mas não percebem. Uma situação recente que me motivou a escrever o post veio especificamente de uma certa guria, famosa do youtube, que soltou a pérola máxima: “mulheres, se vocês querem uma sociedade menos machista, parem de jogar no easy“. Alguém do facebook descobriu a frase, fez uma imagem e no momento inúmeras pessoas já a compartilharam rede social afora.how_it_worksQuer dizer, além dela não saber porra nenhuma de como o machismo funciona, sua situação sugere que ela sofre um preconceito praticamente mínimo no meio: bonita, branquinha, magra, voz macia, canta bem, não faz nada considerado ~vulgar~ e se grava jogando no hard. Cobre todas as exigências dos ~GUÊIMER TRÚ~ metidos a macho pra ser aceita e amada incondicionalmente. Mas ela é a exceção. Não dá pra criar empatia diante de um problema se você não passa por ele ou não dá ouvidos pra quem está disposto a contar suas experiências.

Aliás, só de saber que a ideia de tornar os jogos mais “acessíveis” (para o horror dos ~TRÚ hardcore~) pra quem não tem tanto interesse pelo desafio seja motivo pra sofrer inúmeras ameaças e assédio, como aconteceu com Jennifer Hepler em fevereiro desse ano (e ainda baseando-se numa entrevista de seis anos atrás) chega a ser assustador. Pra que tanta misoginia e elitismo, gente? Qual a lógica de ficar com esse monte de mimimi diante de uma alternativa totalmente OPCIONAL? A jogabilidade e a dificuldade estariam ali, bonitinhas, prontas pra serem usadas. Além do que, os jogos não têm a obrigação de agradarem o público ~hardcore~ o tempo todo. É como reclamar que o Wii não tem, sei lá, God of War. Existem públicos diferentes e é claro que quanto mais o mercado abocanhar, melhor. Em relação aos jogos casuais, devo concordar com esse texto da Bebs.

Em suma: Você tem sonhos molhados com  jogos difíceis? Tudo bem. Tem orgasmos múltiplos gastando dezenas de horas em um único jogo mesmo morrendo muitas e muitas vezes? Às vezes mesmo tendo pouco tempo livre por causa de trabalho/estudo? Tudo bem também. Tem tara de colecionar achievements mesmo sabendo que eles só servem pra inflar o seu ego e dar uma aumentada no replay value? [**] Ótimo! Mas absolutamente nada disso dá passe-livre pra você cagar regra nas formas de jogo alheio. Se fosse algo que prejudicasse alguém, como cheaters em partidas online, vai lá. Mas o que eu mais presencio não é bem assim. É até mesmo banal ver nego argumentar pra qualquer crítica, mesmo fundamentada, que não se deve legar jogos a sério “porque serve pra diversão”. E mesmo se eu concordasse com isso independentemente do contexto, diversão é algo bastante relativo.

O Kotaku também publicou um texto a respeito dando como exemplo o modo fácil de Deus Ex: Human Revolution. E sinceramente? Eu jogaria esse modo primeiro, caso meu PC rodasse. Não tenho tanto problema com a ação nos jogos, mas se o universo de Deus Ex for tão bom quanto acredito, eu o aproveitaria antes de começar a meter bala nos inimigos.

Futuramente, pretendo criar mais posts sobre “coisas escrotas da cultura nerd/gamer”. Já tenho duas em mente: a inferiorização que fazem com as mulheres (não que eu já tivesse falado a respeito, mas dá pra estender o assunto mais um pouco) e a cagação de regra nos cosplays alheios.

UPDATE: Mais um texto sobre o level easy está no Kotaku. Comentei lá, mas tenho uma preguiça infinita por certos comentaristas.

[*] Ele não raramente é um belo escrotão nos vídeos e faz algumas críticas um tanto desnecessárias, mas talvez isso seja “”proposital””.

[**] Meu caso.

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17 comentários sobre “O horror do level Easy

  1. Ousas desafiar o Estatuto do True Gamer?!?!?1 u_u

    xDDD

    Sempre joguei/jogo no easy (no máximo no normal), até porque os combates são o que menos gosto, meu lance é acompanhar a narrativa e solucionar puzzles. E não tenho vergonha de admitir que sou ruinzona, mas várias vezes me deram ~toque de amigo~ pra eu não falar isso porque poderia “reforçar o preconceito de que mulher é ruim nos games”. Aí eu respondo com um sonoro “f*da-se, ninguém tem que provar nada pra ninguém”. Pelo contrário, submeter-se à nóia de se provar como gamer é que reforça preconceitos e mantém padrões antiquados, né?

    Mas o que me irrita, mesmo, é o “mimimi” contra as formas de tornar os games mais universalmente acessíveis, como você bem citou. Qualquer mínima sugestão e lá vem o guêimer trú bradando impropérios, como se incluir opções A MAIS, que ele pode simplesmente IGNORAR e seguir feliz com sua preferência, fosse deixá-lo em algum tipo de desvantagem. É dose.

    PS: Respondendo ao comentário lá no GoW… Óunn! ♥
    Estou sempre aqui (em stealth mode, mas estou rs). Queria muito ir na BGS, mas não vai rolar. =/

    • Tem uma coisa que uma amiga comentou no grupo que participo e acho que tem muito sentido: um moooonte de gente é ruim pra cacete nos jogos, mas não admite. Não comenta nada seja em análises, discussões e o diabo a quatro. Talvez por medinho de ter que aguentar a encheção de saco dos ~hardcore~, dando a impressão que só uma minoria vai mal.

      UHEUEHEUH stealth mode, adorei xD E COMO ASSIM NÃO VAI ROLAR? ;___; primeiro o ludobardo e agora você! sacanagi T_____T

  2. Sempre que resolvo pegar um jogo para ir até o fim (God of War, por exemplo), nem de longe me ocorre a possibilidade de escolher o level hard. Então dependendo do jogo, pondero se jogarei no fácil ou médio. Call of Duty eu sempre coloco no fácil, God of War no médio, Age of Empires e Assassin’s Creed no médio também.

    Mas não me considero um gamer, pois jogo muito esporadicamente e o único intuito é a diversão mesmo. Pode até ter dificuldade e quebração de cabeça, contanto que o objetivo seja a diversão.

    • Cara, nem esquenta com esse negócio de se chamar de gamer ou não. Joga o que tu gosta e quando quiser. Eu só me chamo de “gamer” puramente pra fins de identificação, mas odeio o termo.

  3. YAAAAAAAAAAAYYY curti

    Eu conheço gamers que fazem isso (CAHAM). É absurdo. O game é um produto pra ser consumido como se desejar. Que nem macarrão: molho branco, vermelho ou rosé. Quem decide como vai consumir é o consumidor!

  4. Sabe o que mais me incomoda nessa história? É alguém ter orgulho de ser veloz o suficiente nos dedos para conseguir jogar algo no modo hard. É muito vergonha alheia ver alguém se gabar disso.

    Cara, sério. É tipo aquelas mães que acham que seu filho é “fora de série” porque fez alguma coisa absolutamente normal, como aprender a falar um ano antes dos coleguinhas do prédio ou ganhar um campeonato de xadrez da 5ª série.

    Na verdade, é ainda pior, porque essas coisas ainda são mais admiráveis do que jogar God of War no hard. Deixa eu repetir pros bitolados: JOGAR UM JOGO NO HARD NÃO E MÉRITO ALGUM. PELO CONTRÁRIO, É MAIS PROVÁVEL SER DEMÉRITO, POR PROVAR QUE O SENHOR NÃO TEM UMA *VIDA*.

    Pronto, falei. 😄

  5. Finalmente alguém falou a verdade, sempre isso me incomodou um pouco sabe muita gente me xingava dizendo que eu não era “gamer” de verdade por que não concordava com o elitismo deles em relação a os outros jogadores. Todo dia eu vejo essas pessoas que pareçem que tem os 10 mandamentos de como ser “gamer” sendo muito ingnorantes com os outros.

    Eu sempre falei que essas tais “normas” que os true games inventaram se sentirem importantes ou seja terem um rótulo para algo do que ser ogulhar mesmo sendo uma grande idiotisse. Eu não tenho nada contra games díficeis, ate gosto de vez em quando mas acho uma idiotisse isso por que é só uma escolha cada um joga como quiser, assim cada um fica feliz.

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