Comentando: Jogador nº 1

Recentemente fiquei sabendo desse livro escrito por Ernest Cline, não lembro onde, e a julgar pelas resenhas que procurei, tinha cara de ser bom. Como não achei na biblioteca (e olha que ele tá bem famosinho já), acabei comprando, e posso dizer que foram 20 reais muito bem gastos.

O livro é todo narrado pelo protagonista Wade, um garoto órfão de mãe e pai que vive com a tia numa extrema pobreza, morando numa espécie de pilha organizada formada por inúmeros trailers de famílias na mesma situação. Em 2041, o mundo está numa completa distopia devido a catástrofes, guerras, fome, poluição e crise de energia. Digamos que é a nossa realidade numa versão muito pior e com a fortíssima presença de tecnologias avançadas e grandiosas (é, mais do que já está). A maior delas, sem dúvida alguma, é o OASIS. A grosso modo, trata-se de um MMORPG de acesso gratuito verdadeiramente colossal baseado em realidade virtual, que praticamente dominou o mundo todo devido a suas utilidades. Pra você ter uma ideia, existem escolas virtuais lá, e a formação tinha o mesmo valor que uma escola física. O OASIS também possui inúmeras réplicas de universos existentes da ficção, tudo isso gerado de maneira hiper-realista. As pessoas podiam ser o que quiserem. Em suma, é uma utopia virtual em contraste com a distopia real.

A história começa quando o criador do OASIS, James Halliday, morre. Diferente do que se podia esperar, ele não tinha herdeiros e nem familiares vivos. Passou os últimos 15 anos praticamente isolado por contra própria. O mundo de surpreendeu quando viu seu testamento, chamado “Convite de Anorak” (o nome do avatar dele) e em forma de vídeo, enviado para todos os usuários do OASIS. Nele, Halliday anuncia que qualquer um poderia receber sua herança de bilhões de dólares, caso ganhasse um concurso criado por ele, inspirado no primeiro easter egg de um jogo do Atari: aquele que encontrar as três chaves (de cobre, de jade e de cristal) que abrem três portões escondidos ganhará o prêmio. Como Halliday era um completo fanático pela cultura pop dos anos 80, ele também disponibilizou o Almanaque de Anorak, com inúmeras anotações e observações sobre filmes, quadrinhos, livros, séries e jogos que gostava da época. Lá estariam as pistas para encontrar sua fortuna.

E assim começa a caça ao Easter Egg de Halliday. Com tanto dinheiro em jogo, inúmeras pessoas tornaram-se “caça-ovos” (tradução tosca que deram), determinadas a estudarem e revirarem tais mídias de 60 anos atrás a ponto da cultura atual ser completamente dominada pela antiga. Cinco anos se passaram desde então, e absolutamente ninguém encontrou nem mesmo a primeira chave. O interesse pela caça foi diminuindo e muitos passaram a acreditar que era mentira, ou que ninguém ia conseguir mesmo. Até Wade encontrar a chave de cobre, gerando todo o rebuliço do começo, além de seu avatar, Parzival, se tornar uma celebridade instantaneamente.

Além de Wade, conhecemos também Aech, seu melhor (e único) amigo do OASIS e Art3mis, famosa no meio por escrever em seu blog sobre seu progresso na busca e contando sobre suas fontes de pesquisas. Assim como manda o clichê, Wade mantém uma paixonite pela garota, mesmo sabendo que ela poderia ser “um homem gordo e peludo que usa sintetizadores pra mudar a voz”. Soa familiar?

Não há dúvidas que uma das características mais marcantes do livro está na CARALHADA de referências aos anos 80. Comecei a anotar nomes de algo ou alguém que não conheço num caderninho e já rendeu quatro páginas. Mas caso você me pergunte se há um risco muito grande de ficar perdido por causa disso, posso afirmar com certeza que não. A maioria das referências funciona como aquelas piadas de física em The Big Bang Theory: mesmo que você não entenda, isso não vai te impedir de acompanhar a história. Há quem diga que elas são forçadas (e são um pouco mesmo). Por outro lado, pessoalmente recomendo que você tenha uma ideia básica de como MMORPG’s funcionam e do que é Dungeons & Dragons, pelo menos.

Obviamente, um monte de coisas apreciadas na cultura nerd aparece. Reconhecer algumas delas me tirava um sorriso de satisfação do rosto, em especial as referências ao Guia do Mochileiro das Galáxias e Back to the Future. Sim, também temos Star Wars, Star Trek e Senhor dos Anéis no meio. Mesmo muitas vezes sendo dispensáveis, dão um gostinho especial à história.

Há alguns problemas como erros de gramática, de digitação e traduções duvidosas (como essa de “caça-ovos”), além de alguns furos, mas nada muito gritante ou que incomode muito. A leitura é bastante fluída e as descrições não chegam a enjoar. Só de vez em quando senti que a leitura ficou meio arrastada ou repetitiva.

— SPOILERS TIME!! —

(vá pro final do texto para ler informações ~seguras~)

No final do livro, há uma revelação bombástica de que Aech é uma mulher. E negra, gorda e lésbica.

Meu cérebro explodiu.

Aí mais a frente estava escrito “homossexualidade” e “orientação sexual”, enquanto Wade dizia que nada dessa descoberta iria diminuir sua amizade. Assim, certinho. Fiquei incrédula. Sei que é estranho enfatizar algo aparentemente banal, mas a julgar pelo tom do livro, esse cuidado foi, digamos, inesperado.

Juro que fiquei me mordendo de curiosidade de saber quais eram as intenções do Cline com essa revelação.

Agora sobre o final. Sem graça pra caralho, sério. Não era tão frustrante quanto temia ser, mas foi ruim de qualquer jeito. Quero dizer, sejamos francos: o mundo tá na merda completa e já que a intenção do dinheiro era acabar com a fome e tudo o mais, não custava ter um maldito epílogo para contar o quanto o mundo e o OASIS mudariam a partir de agora! Tanto que quando Halliday mostrou que havia um botão que ia mandar o OASIS inteiro pros ares, podia jurar que Wade ia começar a pensar em usá-lo. “Não faça o mesmo erro que eu”, diz Halliday. Mas não. Acabou no maior estilo filme de romance clichê.

— FIM DOS SPOILERS —

Sobre os personagens. Wade é um exemplo claro de estereótipo de nerd: gordo, antissocial e virgem, como que uma consequência por passar o dia todo conectado no OASIS estudando feito louco o Almanaque de Anorak. Ele também se mostra babaca ou insano em algumas circunstâncias, especialmente quando envolvem Art3mis. Wade é bastante idealizado na sua capacidade absurda de raciocínio e conhecimento, tanto quanto os demais. Aliás, apesar de Art3mis ser tão capaz na caça e ser um pouco mais sensata que Wade, ela é a que menos tem participação na história. É uma pena, pois ela foi muito mal aprofundada. Talvez seja por isso porque não consegui me identificar com ela.

Fora as ressalvas e o final meio blé, adorei bastante o livro e recomendo! É bem provável que ele será abraçado (se é que já não foi) pela cultura nerd como “leitura obrigatória”.

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5 comentários sobre “Comentando: Jogador nº 1

  1. Interessante. Você já tinha me explicado direitinho, mas foi bom ler a análise completa.
    Não resisti e li os spoilers, então vai ser improvável que eu leia o livro tão cedo rs.
    Mas quando algum amigo emprestar, lerei sim 🙂

  2. – CONTÉM SPOILERS –

    Quase CHORAY com a revelação d@ Aech, e o fato de terem escrito homossexualidade e orientação sexual, assim, certinho, também me saltou aos olhos! Achei do caralho essa parte, ela explicando que foi ensinada a criar um avatar homem e branco para conseguir mais facilidades (explicando muito bem o que é privilégio!). Fiquei emocionada.

    E concordo com você, o final foi super sem graça, bem de adolescente, né? Ficou uma coisa meio “ué, cabou?”, mas não no sentido bom da coisa, entende? Ficou faltando mesmo. Acho que valia um epílogo.

    E adorei essa nossa sintonia de postarmos sobre o livro no mesmo dia! haha

    Bjs

    • Na verdade eu pretendia publicar um pouco antes, mas tava sem internet pela segunda vez -_- e apesar de eu ter começado a ler antes de você, acabamos terminando mais ou menos ao mesmo tempo, hahahaha

      (eu não cheguei a chorar, mas fiquei tão dramática quanto o gif is this real life xDDD)

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