Comentando: Dear Esther

Print que tirei durante o jogo. É tanto lugar lindo que fica difícil escolher um favorito.

A primeira vez que soube desse jogo indie, originalmente um mod para Half-Life 2  lançado em 2008 e que ganhou um remake do thechineseroom, foi quando o disponibilizaram no Steam. Pois bem, você é uma pessoa sem qualquer traço de identidade ou voz perdido em uma ilha, aparentemente por causa de um náufrago mesmo. Enquanto vaga por ela, um narrador conta vários trechos que variam sobre alguma coisa relacionada à ilha, cartas para Esther e menções sobre outras pessoas, como uns tais de Jakobson e Donnelly. Enquanto alguns trechos são narrados aleatoriamente, outros aparecem dependendo o local em que você passa.

O jogo tem um visual bastante agradável e detalhado, acompanhado de uma atmosfera bastante serena e ocasionalmente com uma trilha sonora suave ao fundo. Achei bacana isso, principalmente por ter rodado de boa no meu PC low end e ser consideravelmente leve (1,5GB após instalado), apesar de curto.

A grosso modo, é mais fácil dizer que Dear Esther está mais próximo de um “filme com toques interativos” do que como um jogo propriamente dito (se formos comparar com o sistema “padrão” que a maioria dos jogos segue atualmente). Digo isso porque tudo o que você faz durante o jogo é andar, andar e andar. É possível nadar por um tempo, mas se você ficar uns 10 segundos debaixo d’água sem ver a superfície, será recolocado no chão mais próximo de onde estava (problema que não existe ao fazer o terceiro capítulo). Não é possível pegar nenhum objeto e nem correr, quanto menos pular. Em suma, você é simplesmente um espectador.

Apesar de parecer um jogo de mundo aberto, não leva muito tempo pra perceber que não é bem assim. Enquanto explorava o local pra achar alguma coisa interessante, tinha momentos que não podia avançar por causa das pedras (que nem eram tão altas assim e um pulinho viria bem a calhar) ou pela impossibilidade de nadar até ponto X. Como o jogo não diz absolutamente NADA do que você deve fazer pra chegar do ponto A ao B, é meio frustrante ter que ficar rodeando o mesmo lugar até achar a saída. Devido à mínima interação oferecida, tal atividade torna-se cansativa depois de um tempo.

Senti uma tensãozinha chegando nessa parte.

A narrativa é extremamente metafórica. Nada parece fazer sentido à princípio, principalmente devido à falta de linearidade. Como se isso não fosse suficiente pra deixar com um nó no cérebro, dentro das grutas e em algumas pedras que olhei, há vários desenhos que não sugerem qualquer lógica para o contexto, que iam desde um amontoado de células até estruturas moleculares e complexos circuitos. Tudo num azul fosforescente.

Bem, eu realmente reconheço não ser muito boa para entender metáforas, mas enquanto jogava, tirei uma conclusão: que tudo aquilo é um sonho, meio que uma alucinação ao mesmo tempo, misturado com lembranças confusas e um sentimento angustiante relacionado à morte e solidão. Comecei a pensar nessa hipótese inicialmente baseando-me no que acontece ao “morrer”: seja caindo de uma altura considerável ou se afogando, o narrador diz “come back” e segundos depois, você está lá, bem ao lado de onde “morreu”. Sem qualquer resquício. É como se a tela, ao ficar preta nesse meio tempo, representasse o estado alfa do cérebro, que é quando você não está nem dormindo e nem acordado “de verdade”. Além disso, inúmeros elementos do cenário só me fazem reforçar mais minha ideia. Por exemplo, ao nadar na gruta do terceiro capítulo, você não tem problemas em ficar lá sem respirar como no mar, então conclui-se que o problema não é a água em si, mas o que aquilo representa para o “sonho”. Outro motivo são os objetos espalhados nos locais mais improváveis, como velas, latinhas usadas, pedaços de motor de carro, fotografias, um desfibrilador e objetos cirúrgicos simples.

À medida que ia jogando e lembrando de alguns fragmentos da narrativa, ao mesmo tempo que procurava observar bem esses objetos, comecei a construir um sentido para tudo aquilo e a relação entre o narrador e Esther. Embora eu não saiba, nesse momento, expressar isso eficientemente, digo que o final foi muito emocionante e que só tenho a recomendar que joguem! O jogo, com uma proposta tão diferente do gênero mainstream, sem dúvidas merece atenção. No começo eu esperava que ele fosse chatérrimo por causa da limitação de interação. Mas no fim, fiquei satisfeita em jogá-lo.

Update em 2015: Encontrei este guia no steam que revela vários segredos e possíveis respostas a alguns mistérios do jogo. Várias coisas que definitivamente não reparei à época desta resenha.

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5 comentários sobre “Comentando: Dear Esther

  1. Humm… Curioso. Me pergunto se esse game me lembraria os sonhos bizarros que normalmente tenho, ou mesmo se me levaria a ter mais sonhos assim. Ha, ha.

    Gostei da análise, até porque não foi muito extensa. <: )

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