Mirror’s Edge e o estereótipo de beleza

Comparação de modificações que algum jogador punhet-digo, fã da Faith fez nela.

A primeira vez que eu mencionei alguma coisa sobre feminismo foi neste post, mas é só agora em que eu decidi falar especificamente sobre o tratamento dado à imagem nas mulheres nos games. Inclusive tenho um esboço guardado com maiores detalhes que falta melhorá-lo. Mas com uma informação interessante que me veio hoje, decidi adiantar um pouco o assunto.

Pois bem, eu já estava ciente dessa criação de uma Faith alternativa aparentemente existente desde o lançamento do jogo há um tempo, mas eu estava por fora da opinião dos desenvolvedores e produtores. Aí, lendo os comentários desse excelente guest-post que fala justamente sobre as personagens femininas dos games é que eu descobri. Uma citação que foi tirada desse post do Omelete (e que é possível confirmar as informações em um blog gringo da MTV) de Tom Farrer:

Eu achei isso meio triste. Nós levamos bastante tempo desenvolvendo Faith. Era muito importante para nós que ela parecesse humana, que fosse real. Quisemos nos afastar dessa caracterização típica das mulheres nos jogos, onde elas se restringem a peitões e um bundão com biquini de aço. Quisemos dar a ela um visual atlético e forte, mas apenas o suficiente para que ela pudesse fazer as coisas que faz. Quisemos que ela fosse atraente, mas não uma supermodelo. Nossa intenção foi torná-la real. É deprimente que alguém acredite que Faith ficaria melhor se fosse um moleque de 12 anos siliconado. É isso o que essa imagem me pareceu.

A resposta de Tom é simplesmente fantástica. Porque o problema não se resume na objetificação feminina, como também na completa descontextualização que o excesso de erotização causa nos jogos na grande maioria das vezes. Afinal, Faith possui uma anatomia perfeita para sua função no jogo: correr, pular, lutar com movimentos rápidos e fugir. Além disso, Mirror’s Edge é em first person, o que só diminui a lógica de botarem uma heroína gostosa no meio.

Enfim, esse é um jogo que eu gostaria de colocar uma análise mais detalhada futuramente e focada na história, ou pelo menos depois que eu conseguir me habituar com a jogabilidade (sempre morro no segundo capítulo, e desanimei depois de um tempo). Levando em conta os posts sobre Mirror’s Edge que eu li por aí, o jogo por si só é ótimo, mas por possuir uma estrutura tão diferente do habitual, ele não teve seu sucesso merecido.

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13 comentários sobre “Mirror’s Edge e o estereótipo de beleza

  1. Pingback: Nerds e o privilégio masculino « Colchões do Pântano

  2. Pingback: Sobre a representação feminina nos jogos « Colchões do Pântano

  3. Eu zerei mirror’s edge já faz um tempo e eu sempre pensei que, se fosse um jogo mais longo (eu zerei em menos de 6 horas), deveria fazer um super sucesso, pois é extremamente único e original! Tanto a jogabilidade como os desenhos em cartoon no meio da história. A faith é uma personagem extremamente bem pensada e refazê-la para satisfazer sonhos eróticos de nerds sem vida social simplesmente é prepotente e ofensivo, na minha opinião. Se ela já fosse uma gostosona -igual a todas as outras personagens de todos os outros jogos- ninguém nem iria notar a parência dela (como você disse é um jogo EM PRIMEIRA PESSOA). Mas como ela foi contra os padrões exorbitantes de beleza impossível dos jogos, tiveram que meter o bedelho encima.
    Achei a resposta genial, também.

    • Será? Mas se formos levar em conta o tempo do jogo como parâmetro, é como dizer que Limbo foi um fracasso =P uma das críticas que eu li sobre o jogo era o parkour e o fato de serem poucas as vezes em que ela empunha uma arma de tiro.

      Verdade, os desenhos em cartoon foi um belo diferencial. Você chegou a ler a história em quadrinhos sobre o jogo? Só consegui o primeiro número.

      Olha Bárbara, o problema não se resume em nerds sem vida social punheteiros (que também é um estereótipo que já deu), mas a grande maioria dos homens dentro e fora da cultura nerd desejariam esse tipo de modificação por ser uma mentalidade generalizada.

  4. Pingback: Eu fui plagiada pela Acigames Magazine « Colchões do Pântano

  5. Curioso… Eu sou homem, acho que sou até meio machista, e também acho BEM melhor a Faith original… Não só pra função dela no jogo mas inclusive esteticamente.

  6. Mirror’s Edge é um dos meus jogos favoritos, achei tão bom que assim que terminei já iniciei o jogo no Hard de novo imediatamente. Acho que zerei ele umas 6 vezes! =D
    Sem dúvida, uma das coisas mais legais do jogo(além da sensação do parkour que é MUITO bem passada) é a personagem principal. Faith é uma personagem muito forte e interessante, uma das minhas favoritas em jogos, juntamente com a Alyx, do Half Life, e a Elika do Prince of Persia de 2008.
    É bom ressaltar que, apesar de a Elika ser sim um personagem bastante sensual, o que torna as 3 personagens interessantes é a personalidade construída para elas ao longo das horas de jogo. O que faz com que eu goste dessas personagens é o fato de elas serem extremamente humanas. Eu não acho que a personagem ser sensual seja uma coisa ruin, desde que isso não entre em conflito com o contexto no qual ela está inserida(como no caso da Elika). Mas o que acontece muito em jogos é os produtores se esquecerem de criar um roteiro interessante e apostar em características mais chamativas. Isso não acontece apenas com personagens femininas, mas com masculinos também, que são apresentados como brutais ou extremamente poderosos para chamar atenção, sem lhes ser dado uma personalidade interessante(conhecem um tal de Kratos?). A diferença é que, no cenário feminino, o que consideram como “chamativo” é o apelo sexual.
    Eu ainda espero um amadurecimento grande da indústria de jogos para que tenhamos personagens femininas mais interessantes futuramente, sem que seja necessário colocar peitos gigantes nelas.

    • Eu comprei esse PoP durante a summer sale, mas não tive oportunidade de conhecer melhor a Elika, embora eu li que tem quem quisesse que ela fosse a protagonista por ficar te ajudando o tempo todo e tal (diga-se de passagem, é bem irritante ter são milimétrico durante os saltos e acho impressionante de quem reclama que o jogo é fácil por não ser possivel morrer graças a Elika). E bem, acredito que o problema não é a sensualidade em si, mas usar uma mulher personagem como se isso fosse a maior prioridade, como fizeram em Bayonetta e seus closes constantes nela, entre outros detalhes. Do pouco que vi em PoP, isso não acontece.

      “Isso não acontece apenas com personagens femininas, mas com masculinos também, que são apresentados como brutais ou extremamente poderosos” Você tá se confundindo com um detalhe importantíssimo: IDEALISMO com OBJETIFICAÇÃO. Se um homem é representado assim, é porque isso faz parte de um desejo de como gostariam que fosse (ou você acha que os super heróis musculosos das HQ’s americanas foram feitos assim pra satisfazerem mulheres heterossexuais?). Já uma mulher gostosa com um biquini de aço no meio da neve lutando contra orcs foi feita assim para satisfazer o chamado “male gaze”. Isso é explicado aqui: http://tvtropes.org/pmwiki/pmwiki.php/Main/MaleGaze

      • Sim, sim, eu sei que há essa diferença. Acho que não fui bem claro. Foi isso que eu quis dizer com: “A diferença é que, no cenário feminino, o que consideram como “chamativo” é o apelo sexual.” Eu sei que as duas situações são muito diferentes, eu só estava falando sobre os motivos de fazerem isso.
        E no caso do Bayonetta, acho que sou uma excessão quando se fala desse jogo. Achei esse exagero de sensualidade uma coisa extremamente divertida e necessária para o clima do jogo. E em nenhum momento me senti atraído “sexualmente” por essas características do jogo. O jogo foi acusado de machista, mas eu acho que não teria a mesma graça sem essas cenas ridículas de “apelo sexual”(que são realmente ridículas, mas contribui com o clima humorístico do jogo). Eu não sei até que ponto ele deveria ser tachado de machista ou apenas uma forma diferente de se expressar artisticamente. De vez em quando eu acho essa questão um pouco conflitante. Se você simplesmente condena tudo que faz apelo sexual, você automaticamente descarta tudo isso como uma coisa ruim, o que não necessariamente é verdade. Mas enfim, eu vi uma graça pra isso em Bayonetta que não vejo em jogos como Dead or Alive, por exemplo(esse sim eu acho muito apelativo e desnecessário).

        • Eu vejo Bayonetta como um exemplo de objetificação (e consequentemente machista) que só é óbvio por ser exagerado, diferente da grande maioria das vezes em que o nível está mais ou menos igual e, portanto, te deixa acostumado o suficiente pra não perceber por que é problemático botar menos proteção numa mulher em comparação a um homem quando ambos são guerreiros, por exemplo. O próprio Hideki Kamiya deixou claro em uma entrevista que Bayonetta é a sua versão idealizada de mulher (como aparece no post que traduzi a respeito), então dá a entender que ele não a deixou exagerada para fins cômicos, mas por ter essa visão bastante distorcida e objetificada das mulheres. Já li algumas reações que pessoas tiveram ao jogaram e varia entre achar engraçado, nojento ou excitante.

          Como eu (tentei) dizer antes, o problema NÃO É o “apelo sexual” isoladamente. O problema é isso ser o “default” quando se trata de representações femininas (problema que não existem com representações masculinas em sua maioria). Vou colar aqui o que escrevi em um dos guest-posts que fiz pro Ativismo de Sofá:

          “Essas gostosas mostradas na mídia de entretenimento não seriam realmente um problema se:

          – Elas não fossem o padrão como representação feminina;
          – Elas não tivessem seus corpos distorcidos para parecerem mais atraentes (leia-se: hiperlordose lombar, coluna vertebral elástica, ausência de órgãos internos);
          – Elas não fossem criadas para serem objetos e realizarem fetiches dos seus criadores;
          – Elas não fossem tratadas como peitos e bundas ambulantes.

          Assim, não é nenhuma novidade você se deparar com textos que soltem pérolas como essa: “Ok, agora mãos à obra. Vamos ajudar os quadrinhos, tentando trazer mais mulheres até eles. O pior que pode acontecer é deixarmos o mercado mais bonito”. Porque é isso que realmente importa, sabe? Sermos enfeites. Ou produtos, como as booth babes são tratadas.”

          • Pois é, o Kamiya deu essa declaração. Mas ele também foi o cara que ficou extremamente chateado quando fizeram fanfics hentais de Bayonetta. No Bayonetta existe realmente uma objetificação da personagem, mas é o que eu falei, isso deu um clima legal pro jogo.
            O que eu quis dizer foi isso: eu não acho que seja um problema esse apelo sexual, pois isso pode ter seu objetivo. O problema, como você disse, é isso ser o padrão. Não lembro nenhum personagem feminino além da Alyx e da Faith que fujam a essa imagem, e isso sim é preocupante. O Bayonetta pra mim foi um caso que deveria existir independente do cenário padrão machista que de hoje. O cenário que não deveria existir.

            • “Mas ele também foi o cara que ficou extremamente chateado quando fizeram fanfics hentais de Bayonetta”

              Exato. E achei isso contraditório pra cacete. Deu a entender que ele está tão imerso na sua idealização que não percebe do quão degradante é.

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