“Pirinerd”: Porque chamar de attention whore é muito mainstream

Não é preciso fazer muita coisa para automaticamente ser categorizada como uma "pirinerd".

Ontem eu li um texto bastante deprimente do Garotas Geeks falando sobre umas tais de Pirinerds, uma definição nova para garotas que supostamente fingem gostar de coisas nerds/geeks/gamers para chamarem atenção dos marmanjos. O post, falhando miseravelmente em ser engraçadinho sobre um tema bastante complexo e extremamente carregado de preconceito, me incentivou a dar o meu ponto na questão. E antes de me dizer “ai ai ai ui ui ui pra que levar o assunto tão a sério que falta de senso de humor mimimimi”, acredito que depois do caso Rafinha Bastos, já deu pra perceber que vomitar preconceito sem um pingo de bom senso e limite (independentemente do nível e do alvo criticado) para finalizar com um “LOL” ou “rsrsrsrs brinks” não diminui o tamanho da asneira. Principalmente dentro da Internet.

Primeiramente, vamos levar em consideração o que é a cultura nerd/gamer/geek hoje. Se originalmente essas culturas eram muito específicas e restritas, a acessibilidade e glamourização criadas e estimuladas em cima dos nerds fizeram com que ela se tornasse muito mais ampla, flexível e com inúmeras variações. Em outras palavras, uma modinha com qualquer outra. Não que isse fosse um problema em si, faz parte de qualquer cultura se transformar e se adaptar conforme sua geração. Mas é claro, os que se auto-dominam nerds tr00, normalmente quem está há mais tempo inserido nessa cultura, têm uma visão tão conservadora da questão que qualquer coisa que não se encaixe no rótulo carregados por eles mesmos é automaticamente pseudo-nerd e, portanto, merecido de todo o seu desprezo. Engraçado que muitas dessas pessoas que agem como se sentissem ameaçadas por aqueles que entraram na cultura nerd após se tornar algo cool também alimentam esse glamour. Pense naquelas listinhas um tanto arrogantes de “10 Vantagens de Ter um Namorado Nerd” e você vai entender o meu ponto. Mais ainda, já me deparei com um site voltado exclusivamente em postar fotos de cosplayers e garotas gostosas supostamente nerds. Você podia contribuir enviando fotos, e sabe qual era o requisito mínimo para uma “foto nerd”? Óculos.

Não obstante, na pior das hipóteses, você poderá esbarrar em nerds xiitas que não podem ver alguém se chamando de nerd e dizer não gostar de Star Wars na mesma frase que já caem matando, praticamente pela mesma razão citada acima.

Um comentário muito interessante que a Julia Kaffka fez quando comecei o debate na comunidade Feministas no Facebook e do qual reproduzido um trecho a seguir: “Aquela hora tão falada ‘um dia os nerds vão dominar o mundo’ chegou e virou não só uma tribo, como uma tribo totalmente elitizada e restritiva. Essa postura da autora de discriminar o ‘não nerd o suficiente’ é muito comum nas rodinhas. Ou acha que não tem gente que não te acha nerd o suficiente se não zerou nenhum videogame ou se não gosta de Star Trek. ou seja, existe uma cobrança do próprio meio que as pessoas se afirmem como nerds e que demonstrem interesse por tudo aquilo que esse universo oferece – mesmo que não goste muito. E isso justifica bastante porque tem tanta gente que faz de tudo para mostrar que é nerd, senão acaba sendo sim marginalizado socialmente”. Também foi bem lembrado quando ela menciona que isso também acontece com outras tribos, tipo fãs de bandas oldschool que ficam incomodados com os “novatos” que entram depois, já que eles gostavam delas “antes de ser legal”.

Além disso, e é o que eu estou repetindo à exaustão no blog por considerar muito importante, temos a desigualdade de gênero que afeta as mulheres em maior ou menor grau na cultura geek. Você já reparou que não tem NENHUMA crítica similar de homens tentando chamar a atenção fingindo gostar de jogos e coisas consideradas nerds? Em contrapartida, temos inúmeras páginas por aí depreciando garotas que tiram fotos seminuas rodeadas de consoles e cartuchos (mas ao mesmo tempo babando por elas). Em nenhuma dessas críticas alguém chega a questionar por que e quando isso passou a acontecer. É cômodo demais dizer alguma coisa além do lugar-comum. Meu principal objetivo neste post é justamente trazer uma explicação para o problema.

Lembre-se daquela situação típica dos jogos online, em especial MMORPG, de homens se passarem de mulheres para ganharem itens raros e subirem de nível sem grande esforço. Isso só acontece porque temos homens que valorizam exageradamente garotas simplesmente por serem… garotas. E temos o bônus das mulheres nos jogos sempre seguirem o mesmíssimo padrão de gostosa. Conclusão: as “pirinerds” nada mais são do que uma consequência formada pelo machismo na cultura nerd. Se elas existem, é porque temos um público ativo e predominante que consome tal imagem de objetificação, ironicamente a condenando ao mesmo tempo, pois, afinal, “elas não se dão o respeito, que vergonha!”.

Mas peraí, será que todas elas absolutamente não entendem porra nenhuma dos jogos, filmes e séries que sugerem gostar? Será que todas essas “pirinerds” são um bando de riquinha que fazem questão de torrar um monte de dinheiro com cosplays, consoles, jogos e camisetas com imagens engraçadinhas com o simples e único propósito de chamar atenção dos nerds? Eu particularmente nunca me encontrei cara a cara com uma delas, só vejo em foto. Então será que todo mundo que critica essas garotas já pararam pra analisar o perfil médio delas? Tudo o que elas têm são só peitos grandes e rostinho bonito ou – surpresa! – elas também conhecem aquele conteúdo estampado nas fotos? Em um post tão infantil como esse do Garotas Geeks, dá para notar que as “pirinerds” são definidas como uma versão alternativa de panicats, com aquele eterno estereótipo de gostosa burra.

Assim, podemos supor que parte, e não a totalidade dessas garotas realmente podem não saber do que está falando porque descobriu que os caras fazem essa hipervalorização de garotas na sua tribo e, seja por uma possível baixa auto-estima, carência de atenção, exibicionismo ou simplesmente machismo arraigado, fazendo-a acreditar que só será aceita se expressando dessa forma, é o que pode formar essas “pirinerds”. Pura teoria, é claro. Generalização sempre dá merda.

Há muitas coisas proveitosas e maravilhosas na cultura nerd, mas é muito triste existir tanto conservadorismo e hipocrisia no meio, principalmente quando qualquer nível de erotismo (de mulheres reais) está presente. Não que o machismo seja exclusivo dessa cultura, mas a julgar pelo sentimento generalizado de muita gente em associar bullying na infância como fator determinante ou influenciável na escolha em se inserir entre os nerds (e usando tal acontecimento como motivo de orgulho/superioridade), isso acaba sugerindo que a galera que forma tal grupo é mais “tolerável” e “aberto”. Não é o caso.

UPDATE: Por causa do pingback automático no Garotas Geeks, encontrei esse texto e mais outro também criticando o post com algumas diferenças. Deem uma olhada.

UPDATE 2: Uma coisa que não tinha lembrado enquanto escrevia esse texto, é que o autor do post Nerds e o privilégio masculino (e que você deveria ler, caso não conheça), no final, citou um detalhe que resume esse problema de comportamento dentro da cultura nerd, ainda que sob outro contexto um pouco diferente:

A sociedade geek se orgulha de ser explicitamente contra-cultura; nerds vão se vangloriar sobre como, enquanto sociedade, que são melhores do que os outros que forem exclui-los. Eles insistem que são mais igualitários; geeks mantém firme a crença de que a cultura geek é uma meritocracia (…). Ainda assim, até mesmo um exame superficial demonstrará que isso não é verdade.

UPDATE 3: Um texto publicado anteontem no Kotaku BR caiu como uma luva para o assunto: A falsa ameaça das falsas garotas geeks. Ele é bem bacana, recomendo que leiam.